agosto 24, 2004

globalização

Geovani dizia sempre que não era dono da esposa, mas apenas o acionista majoritário. Diante de olhares incrédulos explicava suas contas: a mulher de Geovani, Renata, era um mulherão; querer cem porcento do patrimônio, explicava o marido, era ilusão que ele não comprava; por isso, concluía, melhor uma empresa de capital aberto rentável do que uma fechada que o deixava no prejuízo.

Na mesa de bar, sempre que Geovani expunha suas idéias que tratava por "lúcidas e, quiçá, revolucionárias", alguém o advertia se ele não estava deixando o capital abrir demais. Mas o fato é que por trás daquele despeito todos queriam certa participação acionária na mulher do Geovani e nunca conseguiram.
Um dia, porém, um amigo disparou:
- A Renata recebe também capital estrangeiro?
Geovani não entendeu a insinuação. Mas como queria ter sempre uma resposta para dar, disse "naturalmente". E explicou que no mundo globalizado o capital não tem fronteiras.
À noite, especulou com a esposa – eram raras as vezes que fazia isso – com quem que ela andava saindo. Renata, enquanto punha a camisola sob o olhar admirado de Geovani, primeiro tentou mudar de assunto, mas vendo que a informação interessava de fato ao marido, limitou-se a dizer: "com um espanhol aí."
Geovani sentiu-se mais seguro. Pelo menos estava sabendo das tendências do mercado. Além do que, era um homem esclarecido: que diferença fazia se o sócio falava a língua de Machado ou de Cervantes?
O problema é que à medida que o tempo passava os espanhóis pareciam controlar cada vez mais a holding. Os amigos diziam para Geovani abrir o olho, tomar o controle da situação. Geovani protestava – "onde já se viu impedir a livre iniciativa?" – mas não conseguia esconder a preocupação.
Um dia, no entanto, perdeu o controle da empresa. Renata foi simples e direta como um funcionário de departamento pessoal que comunica uma demissão:
- Estou indo embora para a Espanha. Foi legal entre a gente. Fica chateado não.
Fez as malas e partiu. Mais tarde, sozinho em casa, Geovani viu que ela tinha esquecido a camisola que ele tanto apreciava. Ficou horas alisando o tecido e pensando em economia. Chorou.
Hoje Geovani é um nacionalista convicto. Tem gravados discursos do Brizola, participa de protestos contra a globalização e, à primeira oportunidade, tece longos discursos xenófobos.
Vive tranqüilo com sua noiva, Vivian. A firma é pequena, sem grandes atrativos, mas pelo menos não dá tanto trabalho. E é sua, toda sua. Pelo menos é o que o Geovani acha.

Posted by Tiezzi at agosto 24, 2004 2:28 PM