julho 31, 2004

em defesa da memória do cinema nacional

Hoje é chique gostar de cinema nacional, mas eu já gostava no tempo em que a fotografia dos filmes parecia ter sido revelada num balde de cândida*. Assistia para prestigiar a cultura nacional, pilar central da identidade de um povo, e para ver se rolava alguma mulher pelada. Nisso, acabava me deparando com diálogos inesquecíveis que moldaram minha formação literária. Nesta seção vou lembrar de alguns.
Começando por Eu Te Amo, do Jabor, que simboliza o cinema brasileiro da época. Tem a Vera Fischer e a Sonia Braga sem roupa a maior parte do tempo, o Pereio, e a história de dois personagens que travam uma batalha verbal fechados em um apartamento, escolhido para significar o aprisionamento das ilusões e porque a produção não tinha dinheiro.
O filme é um compêndio de diálogos memoráveis. Um deles: Sonia Braga está na rua desesperada, tentando impedir a partida de seu amado Tarcisio Meira. Meira entra num táxi e se manda, deixando Sonia aos prantos.
Se fosse cinema clássico, a cena estaria acabada, pois cumpriu sua função. Mas não. Jabor vai com a câmera junto do personagem secundário dentro do táxi, e ainda dá voz a um mais secundário ainda: o taxista. A cena não tem nada a ver com o andamento da história, mas permite que o taxista dê o seu recado. Diz ele, ante o olhar de saco cheio do Tarcisio Meira:

(taxista gargalha) É isso aí, meu capitão. É isso aí, meu capitão. Mulé é um problema. Mulé é um problema. Eu mesmo tenho cinco mulé na noite, e de vez em quando arrio o cacete ni uma que é pra não sair do meu riscado. (gargalha mais). É isso aí, meu capitão.

* Essa é de autoria do Lusa Silvestre, da revista Vip

Posted by Tiezzi at julho 31, 2004 1:29 PM