- Alô?
- Alô? É o Assunção?
- Ele mesmo. Quem tá falando?
- Como assim? Não tá reconhecendo minha voz?
A voz era grave e séria.
- Você vai me desculpar, mas... não tô reconhecendo.
- De ontem à noite, tá lembrado?
Ontem à noite? O que tinha feito ontem à noite? Ele se lembrava que deu uma saída para tomar uma cerveja no bar da esquina e... mais nada.
- Rapaz, não leve a mal, mas é que agora me deu um branco...
- Também, com o porre que você tomou.
A voz agora parecia mais descontraída. Sim, o porre. Bebeu demais e estava com ressaca amnésica.
- Ah, o porre. É, acho que bebi um pouco além da conta.
- Um pouco? Aquilo é que é bebedeira. Nem imagino o que podia acontecer se eu não estivesse por perto.
- Acontecer? Como assim?
- A briga, não tá lembrado? Quer dizer, a briga que não houve.
- Quem brigou?
- Ninguém brigou. Quer dizer, você não brigou porque eu não deixei. Vai dizer que não lembra que você começou a invocar com o pessoal da mesa ao lado?
- Eu fiz isso?
- Não só fez como eram três na mesa ao lado. E três pitbulls, desses que passam o dia na academia.
Preciso parar de beber, ele pensou. Na dúvida, conferiu se não tinha nenhum machucado grave ou fratura. O da voz grave continuou.
- Tive que usar muita lábia para convencer eles a não te espancarem. Isso com você gritando que os três eram caso um do outro.
- Pô, rapaz, vou ficar te devendo essa.
- Não tem de quê.
- Bom, ainda bem que o pior não aconteceu. Então, mais uma vez valeu e a gente se fala...
- Pera aí, Assunção. E sobre aquele nosso assunto?
Assunto? Não se lembrava de assunto nenhum.
- Ainda tá de pé, né?
- Acho que tá. Quer dizer, tá - respondeu Assunção, sem graça.
- Ótimo, então vou terminar de arrumar minhas coisas e em vinte minutos estou aí.
- Pera aí, pera aí. Como assim? Você vai vir aqui?
- Ué, claro. Pra eu morar aí eu vou ter que ir, certo?
- Morar? Que história é essa?
A voz ficou ainda mais grave e mais séria. E irritada.
- Ô, Assunção, não lembrar dos pitbulls eu até entendo, mas não lembrar de tudo o que aconteceu com a gente?
- Com a gente? O que aconteceu com a gente?
Depois de um silêncio a voz desatou a rir.
- Ah, Assunção, mais uma das suas. E eu quase ia caindo. Tô aprendendo a te conhecer, hein?
- Então, se a gente não se conhece, como é que você vai vir morar aqui...
- Eu também pensava assim. Até ontem à noite. Mas você foi me envolvendo com teu papo, Assunção. Puxa, tudo aquilo que você falou, sobre o amor não poder esperar. Sobre a gente seguir as emoções.
Amor? Emoções? Deve ser outro Assunção, não é possível, pensou. Precisava se lembrar, precisava se lembrar. Era difícil se concentrar com a voz do outro lado, agora romântica.
- Eu sei, Assunção, que pode parecer uma atitude precipitada da nossa parte. Mas a noite foi tão especial. Eu, você, a varanda daquele hotel, as estrelas...
- Pera aí! Que papo é esse? Tá me estranhando, rapaz? - Assunção respondeu nervoso.
- Que é isso, Assunção? Tá maluco? Essas coisas a gente não apaga da nossa vida, não.
- Olha, acho que está havendo um grande, um absurdo mal entendido. Primeiro que eu sou hetero...
- Mas eu também sou, Assunção. A minha vida também mudou desde ontem à noite. Você acha está sendo fácil para mim lidar com esse sentimento que surgiu entre nós?
- Sentimento!? Que sentimento!? Ficou maluco? Bebeu?
- Quem bebeu foi você, Assunção. E não foi pouco não. Se não fosse eu para cuidar de você...
- Olha eu só não te parto a cara porque não sei quem você é.
- Ah, não sabe? Então faz o seguinte, Assunção. Dá uma olhada na sua pele, uns quatro dedos abaixo do umbigo.
Que umbigo era esse agora? Ainda devo estar bêbado, pensou. Preciso parar de beber.
- Como assim, umbigo? Pirou?
- Nós dois piramos, Assunção. Aliás, mais você do que eu. Quem teve a idéia de tatuar nossos nomes um no outro hoje de manhã, depois que saímos do hotel? E quem falou que quatro dedos pra baixo do umbigo era um ponto sagrado? Não acredita? Dá uma olhada lá.
Assunção levantou a camisa amarrotada e olhou para o umbigo. Sob a calça, um borrão que parecia ser de tinta. Quase em estado de pânico, abriu o botão da calça. Estava tatuado, em letras bem desenhadas: Valadares.
- Valadares é... você? - Assunção estava quase sem voz.
- Bingo! - a voz estava de novo alegre e romântica. - Olha, não fica assim não. Tenho certeza que vai dar tudo certo pra gente. Eu chego aí, a gente arruma nosso cantinho, faz um lanche...
Valadares continuou falando sem parar, fazendo planos para o futuro. Disse que tinha certeza que, logo, iriam poder até casar na igreja. Enquanto ele falava dos sonhos que haviam traçado na noite anterior, Assunção pensava o que fazer. O nome e a voz do Valadares ali, grudados nele. Precisava ter calma, encontrar uma solução imediata. Como? Como fazer tudo voltar ao normal? A angústia só aumentava, a sensação de estranhamento, a falta da memória, a ressaca que nublava seus pensamentos. Tomou uma decisão.
Desligou o telefone e foi tomar uma cerveja no bar da esquina.