agosto 31, 2004

fábulas imorais: a mariposa e o urubu

A mariposa vinha cantando alegremente. Aliás, cantando não, pois mariposa não canta. Que diabo mariposa faz? Bom, que seja zunir. A mariposa vinha, pois, zunindo alegremente, feliz e saltitante. Opa, saltitante não que mariposa não saltita. Mariposa voa. Se bem que mariposa feliz e esvoaçante é um pouco demais. Fiquemos assim: a mariposa vinha zunindo alegremente, feliz e flutuante, quando encontrou com o urubu.
- Bom dia, seu urubu! – acenou a mariposa. Acenou não porque se a mariposa está voando as asas estão em movimento; logo, como poderia o urubu distinguir o aceno do natural movimento de asas? Sendo assim, a mariposa, de novo, zuniu para o urubu, e vamos convencionar que os zunidos distinguem-se um dos outros, senão essa fábula fica impossível.

- Que horas são? – rosnou o urubu (embora quem rosne seja cachorro).
A mariposa olhou no seu relógio e logo entendeu o recado urubusístico.
- Tens toda razão, seu urubu, já passa das 6. Logo devo dizer: Boa tarde, seu urubu.
- Pra mim, a tarde não está boa nem ruim. Tudo como sempre esteve. A senhora é que deve refletir sobre isso.
- Não compreendo o que dizes, urubu.
- Ora, dona mariposa, longe de mim querer dar uma de urubu e tratar de assuntos delicados...
- Pois desembuche, homem, digo, urubu. Nada há de me tirar o contentamento.
- Bom, já que a senhora insiste. A senhora está careca de saber – ou estaria careca de saber, se cabelo tivesse – que as mariposas têm somente um dia de vida. Sendo assim, espanta-me ver a senhora por aí, flutuante e feliz, mesmo diante desta tragédia rondando sua frágil existência.
- Ah, seu urubu – a mariposa deu uma risadinha marota, aliás, uma zumbidinha marota. – Mas por que deveríamos nós mariposas preocuparmo-nos com isso, se nosso viver é um eterno presente? Além do mais, que adianta brigar com o destino?
- Se a senhora assim o dizes...
- O senhor está querendo insinuar algo?
- Pelo contrário, dona mariposa, não me interprete mal. Fico, isso sim, muito admirado com vossa força de espírito.
A mariposa de mais uma zunidinha e bateu as asinhas duas vezes (ela já havia pousado). O urubu continuou:
- Veja, até há pouco a senhora era uma larva muito da nojenta...
- Seu urubu! – interrompeu em exclamação a mariposa.
- Ah, desculpe dona mariposa, é que meu linguajar é assim mesmo.
- Não é pelo seu linguajar. Bem conheço a família dos urubus e sei que expressam-se com espontaneidade. É porque há um erro na sua frase. As mariposas não nascem de larvas, mas sim de crisálidas.
- Oh, desculpe minha ignorância (“por nada”, respondeu a mariposa). Bem, continuando. Até instantes atrás a senhora era uma crisálida muito da nojenta (a mariposa balançou a cabeça), agora está aqui e daqui a pouco não estará mais. Isso se um humano não passar com um pedaço de jornal e não lhe acertar a cabeça, matando-a ou a deixando inválida para o resto da sua existência, que nem é muita. De modos que eu acho que... oh, desculpe-me mais uma vez, dona mariposa, ocorreu-me agora que estou aqui a lhe tomar o pouco tempo que dispõe.
- Não tem problema, não. Por favor, continue – respondeu educadamente a mariposa.
- Pois veja, eu fico conjecturando aqui que a senhora está certíssima. A inocência diante da morte é a única saída. Para que pensar no fim inexorável? Para que se martirizar pelo fato de que tudo isso vai acabar, que não vai haver mais flores, mais árvores, mais céu? Não há sensatez em pensar no que vai haver do outro lado, pois se concluírmos que haverá um grande vazio, um grande buraco escuro, isso certamente afetará nossa existência presente, e começaremos a morrer um pouco a cada dia. No caso da senhora, um pouco a cada minuto.
O urubu falou por mais uns vinte minutos, citando quando necessário algum filósofo existencialista. Depois se despediu com um “divirta-se” e se foi.
A mariposa morreu horas mais tarde. Durante o resto do dia não zuniu, não esvoaçou. Ficou contemplando a tarde caindo, a lua surgindo, sozinha e sentindo um vazio enorme por dentro.

Lição imoral 1: Se encontrar um urubu pelo caminho, não dê ouvidos. Pode ser que ele tenha razão.
Lição imoral 2: Se aconteceu, também bem-feito. Tu não tem nada que sair por aí como uma mariposa feliz e flutuante.

Posted by Tiezzi at agosto 31, 2004 6:09 PM