outubro 12, 2004

casa dos filósofos

Hume e Rousseau chegaram a dividir apartamento. Deu briga, e feia. O que era previsível, visto que a única coisa que tinham em comum era a peruca branca com cachinhos.
Hume era um gordinho otimista e alegre. Amigo de políticos e artistas, freqüentava a intelectualidade e pegava uma mulherada. Mesmo quando morrendo declarou que estava na melhor fase da vida. Mas quando escrevia era um cético, um descrente na capacidade humana de conhecer a realidade.
Rousseau era tímido, taciturno, melancólico, misantropo. Não tinha amigos, era casado com uma grosseirona. No entanto, era o filósofo que defendia a bondade natural do homem, a pureza original.
São nebulosos os motivos do rompimento drástico. Alguns comentaristas dizem que foi a peruca. Outros defendem que chegaram a pensar em trocar de filosofia. Há relatos de que depois de cada arranca-rabo Rousseau pedia desculpas dizendo que não era daquele jeito, a sociedade que o tinha corrompido. Hume recusava, argumentando que seus sentidos tinham captado muito bem o canalha que ele era.
O fato é que o sujeito Hume só se dava bem com o Rousseau dos textos, mas odiava o autor. E vice-versa. O Rousseau do papel se daria bem com o Hume pessoa, assim como o Hume-papel com o Rousseau-pessoa.
Aliás, indo mais fundo, o próprio Hume-gente devia ter lá seus desentendimentos com o Hume-escrito. Rousseau também vivia essa incompatibilidade de gênios com ele mesmo.
Enfim, ali ninguém se entendia com ninguém.

Posted by Tiezzi at outubro 12, 2004 12:18 PM