outubro 18, 2004

fábulas imorais: a formiga e o narrador

A formiga vinha caminhando, com uma folha às costas, pela longa estrada de terra em direção ao formigueiro. Contornava, bravia, cada obstáculo, como plantinhas e pedregulhos. Vencia o vento e não se importava com o sol a pino. Estava totalmente envolta em seu objetivo, seguindo corajosamente...
- Anda logo, rapá!
(Silêncio).
(De onde teria vindo essa intervenção?)
- Que é que te deu? Conta esse troço logo. Fica aí embaçando e eu com esse peso nas costas?
Era a formiga. E, pelo visto, está falando comigo.

- Dona formiga, confesso que não esperava pela sua voz ativa na minha humilde fábula, mas é que...
- Meu amigo, vamos deixar as churumelas para depois. Por enquanto eu queria que você narrasse de maneira mais breve que puder a minha chegada ao formigueiro pra eu largar esse diabo desse peso logo. Se você for contar cada pedrinha que eu desviar, o sol, o vento, só vai dificultar minha vida. Além do que, fica parecendo filme iraniano.
Não pude deixar de notar que o humor da minha personagem não estava dos melhores. Arrisquei um gracejo para descontrair o ambiente:
- Mas, dona formiga, o tal peso que a senhora fala não passa de um minúscula folhinha.
- Que é cinqüenta vezes mais pesada que eu. Coloca a tua mãe nas costas, que de tão gorda a proporção deve ser a mesma, e depois a gente conversa.
- Escuta aqui, ô formiga. Estou te tratando com respeito. Recolha-se à sua insignificância. Você não passa de um inseto. E de ficção, ainda por cima.
- Ficção da pior qualidade, diga-se.
Aquela observação da desgraçada com um ar blasé de crítico literário me tirou do sério. Exigia uma resposta categórica.
- Me permite um conselho? Fica na tua que a minha mão está formigando pra te esmagar.
Achei que ia provocar medo. Mas ela riu.
- Olha aí, estou falando. Esse tipo de trocadilho é o melhor que você pode fazer?
Depois, séria, deu-me um golpe que eu não esperava.
- Além disso, como você mesmo disse, eu sou de ficção. Impossível você me esmagar.
A maldita tinha razão. Agora eu sentia o veneno cruel dos bichos de fábulas: eles vivem te dando lição de moral. Obrigam-nos a admitir que sabemos menos que um invertebrado. Ela me fitava com ar de superioridade. Humilhado, eu permanecia com os olhos baixos, fitando o teclado.
O teclado!
- De fato, dona formiga, eu não posso esmagá-la. Mas posso fazer coisa pior.
-
- Desculpe, formiga, não entendi o que você disse.
- Eu não disse nada. Você não deixou.
- A senhorita podia falar um pouco mais alto. Assim não escuto.
Ela acusou o golpe. A empáfia transformava-se em irritação.
- Issto é un truqwxue sujjo. Você naio pplode adyultteorar assssim ol qomnh xclvind.
- Calma, dona formiga. Não fique nervosa. Não consigo entender o que a senhora fala. Calma. Respire...
Fiquei assim, fitando a minha personagem com tranqüilidade e ironia, enquanto ela permanecia congelada, apesar do sol a pino, com um enorme peso às costas. Senti-me aliviado. Poderia escrever um grande sertão veredas inteiro fazendo-a zanzar pra lá e pra cá sem nunca livrar-se do fardo. Ou então fazer literatura intimista, colocando a formiga a viajar para dentro de si mesma, refletindo sobre aquele instante único de sua existência.
- O problema é que ia ficar uma porcaria – pensei alto.
Ou foi a voz da formiga?

Lição imoral 1 – A melhor maneira de tirar um peso das costas é passando-o para alguém.
Lição imoral 2 – Mostre que é maior que seus personagens e você ganhará deles. O problema é que perderá os leitores.

Posted by Tiezzi at outubro 18, 2004 12:07 PM