janeiro 24, 2005

pra que complicar?

- Fabiano, eu preciso falar com você.
- Nossa, que tom!
- É sério, Fabiano.
- Nada é sério, querida. Nem a vida.
- É sobre nós dois.
- Você não vai dizer que precisamos discutir a relação, vai?
- Não. Quer dizer, mais ou menos.
- Elaine, Elaine... Como nós podemos discutir a relação se nós nem temos uma relação. Nada de apego, nada de compromisso, nada de amor, esqueceu?
- Não, não esqueci. O problema é que...

- Eu confesso que sempre tive medo de mais cedo ou mais tarde você cair no convencional. Mas pensa bem: a gente não está bem do jeito que está?
- Está. Quer dizer, não sei. É justamente sobre isso que eu queria te falar.
- Então fala, Elaine, fala. Talvez você tenha razão, minha querida. Expressar os sentimentos é a melhor maneira de iluminá-los.
- É que eu... Eu acho que estou apaixonada.
- Ah, meu anjo, eu sabia que era isso. Elaine, o amor romântico é uma invenção cultural. Um casal pode muito bem viver sem ele.
- Você já me disse isso, Fabiano. Muitas vezes, aliás. Mas é que dessa vez...
- Elaine, perdão querida, mas terei que ser um pouco ríspido: eu te disse várias vezes que não queria compromisso.
- Eu sei disso, só que...
- Elaine, somos adultos. O que é a maturidade senão o controle das emoções?
- Essa você também já disse. Agora eu posso falar?
- Elaine, minha doce Elaine... Eu sei que é difícil. Eu sei que a vida quase nunca corresponde aos nossos desejos. Eu sei que...
- Eu estou apaixonada pelo Oswaldo.
- Elaine, tudo é uma questão de... O quê!? Pelo Oswaldo!?
- É, eu precisava te contar. Não sei como aconteceu, mas...
- Elaine, você tá maluca, Elaine? Como é que você me fala uma coisa dessas? A gente tem uma relação, um compromisso, Elaine. Esqueceu?
- Fabiano, a gente pode resolver isso como adultos. Pra que complicar? Não é o que você sempre fala?
- Justo o Oswaldo, Elaine!? Um simplório. A reflexão mais profunda que ele é capaz é qual camisa vai vestir. E mesmo assim ainda erra.
- Calma, Fabiano. Você está se exaltando...
- Eu te amo, Elaine! Eu te amo!
- Fabiano, a gente está em um lugar público. As pessoas estão olhando.
- Eu me caso com você. É esse o problema, não é? Então, pronto: vamos nos casar.
- Eu não posso, Fabiano.
- Não pode por quê? Esquece esse papo de que o casamento é uma forma de controle social. Eu não sabia de nada, minha querida. Agora tudo ficou claro pra mim.
- Não é isso, é que... eu vou me casar com o Oswaldo.
- Não pode ser verdade. Isso não está acontecendo.
- Sinto muito, Fabiano.
- Elaine, onde você vai, querida? Espera um pouco. Tudo isso deve ter uma razão de ser. Elaine, volta aqui, Elaine. Sem você eu não vivo! E vocês aí? Que é que tão olhando? Nunca se apaixonaram, não? Seus, seus... insensíveis!

Posted by Tiezzi at janeiro 24, 2005 11:53 AM