maio 11, 2005

videogame

- Olha, pai, um videogame! Eu quero, pai! Eu quero um videogame!
Diante da algazarra do menino, o pai não teve outra alternativa:
- Tá bom, pode pegar.
O gordo desceu as escadas desesperado:
- Que barulho é esse? Estão malucos?
- O menino viu o videogame e quis ter um, só isso – o pai limitou-se a explicar.
- Eu falei que não ia dar certo trazer o garoto – resmungou o gordo.
- Já te falei mil vezes. Hoje é meu dia de ficar com ele. Não tinha jeito.
- Não tinha jeito! Não tinha jeito! – o gordo fez uma pausa como que se tocando do absurdo da situação: - Nós estamos no meio de um assalto!
Continuaram discutindo. O gordo insistiu que o moleque tinha que ter ficado com a mãe. O pai retrucava que o parceiro “sabe como é a Clotilde” e que não teve como argumentar: a ex disse que aquele fim de semana era dele e estava acabado. Se não, ia na polícia, e a coisa ia ficar bem pior.
A deliberação foi interrompida pelo som alto do videogame. O menino se divertia matando bandidos. O gordo levou as mãos à cabeça: “Avacalhou de vez.”
O pai mais uma vez defendeu o garoto.
- Deixa, é melhor que ele se distraia enquanto a gente faz o serviço.
- Isso. Liga uma musiquinha também.
- Escuta aqui, ô gordo, estou me cansando das tuas ironias. Te falei que era melhor adiar o serviço.
- Ótima idéia. Faz o seguinte: liga pros donos da mansão e diz para eles ficarem de férias mais uma semana, que ainda não deu tempo da gente assaltar a casa deles.
O menino riu do jeito que o gordo reclamava. O gordo foi até ele tentar resolver a situação.
- Escuta, garoto. Você gosta do titio não gosta?
- Gosto – respondeu o menino sem tirar os olhos da tela. E comemorou: - Matei! Matei o ladrão!
Só então o gordo prestou atenção no jogo. Um policial estilo swat, com um fuzil na mão e um revólver na outra ia abrindo caminho espancando e atirando em uns bonequinhos carecas, mal encarados e cheios de tatuagens. O gordo se revoltou.
- É isso que ensinam às nossas crianças?! A nos espancar! A quebrar nossas costelas!
- Fala baixo, gordo. Quer acordar a vizinhança? – sussurrou o pai.
- Eles ensinam os guris a nos odiar desde cedo – o gordo continuou discursando. – Justamente nós, que distribuimos renda, que não cruzamos os braços diante das mazelas do país! Covardes!
O pai bem que tentou conter a revolta do comparsa. Quando a polícia chegou, o gordo estava perguntando ao garoto se não tinha jeito de os bonequinhos carecas reagirem à opressão. O pai, algemado, limitava-se a balbuciar: “A Clotilde só me dá dor de cabeça.”

Posted by Tiezzi at maio 11, 2005 6:47 PM