maio 24, 2005

a importância de ser Zé

Houve um tempo em que ser Zé bastava. O nome era suficiente para indicar o cidadão. Na Grécia, onde esse negócio de cidadão começou, Sócrates era Sócrates e pronto, e se alguém perguntava de quem se tratava o outro respondia: o chato que só sabe fazer perguntas. “Ah, sei”, respondia o primeiro.
Mas logo os gregos descobriram que só o nome não bastava. Zenão, por exemplo, tinha dois. Anaximandro confundia com Anaxímenes, que por sua vez toda hora era tratado por Anaxágoras. A solução foi identificar pela cidade. Aí passou a ser o Zenão de Eléia, o de Cício, o Tales de Mileto, o Pitágoras de Samos. Alguns ficavam bem estranhos, como o Xenófanes de Colofão e o Filolau de Crotona, mas esses que fossem reclamar na Acrópole. Eram os primórdios dos sobrenomes.
Hoje, com mais de 6 bilhões de pessoas no mundo, ser Zé não diz praticamente nada. Zé da Silva tampouco. E mesmo se apelarmos para o método grego – o Zé da Silva da Vila Anastácia – ainda assim a coisa não está definida.
- Na Vila Anastácia tem vários Zés. Você não tem mais nenhuma informação?
- Deixa eu ver... Ah, uma vez ele falou que o lugar onde mora chama Beco da Farofa.
- Sei, Zé da Silva da Vila Anastácia do Beco da Farofa. Com qual deles você quer falar?
- Como assim, com qual deles?
- Porque tem o Zé borracheiro, tem o filho da Henriqueta, tem um que está foragido, que você não vai achar de jeito nenhum, tem o Zé da Silva da Vila Anastácia do Beco da Farofa da Dona Dindin...
- Tá bom! Chega, chega. Desisto.
- Que é isso, chefia? A gente chega lá. Você não lembra de mais nada? Qualquer detalhe ajuda.
- Detalhe...? Já sei! Esse Zé tem uma mancha rocha, bem grande, no braço.
- Ah... Agora sim.
O que procurava o Zé ficou aliviado.
- No braço esquerdo ou direito?

Posted by Tiezzi at maio 24, 2005 11:30 AM