- Precisamos regularizar a situação.
Era assim que ele, Otávio Morais Gouvêa, assim mesmo, com circunflexo como sua personalidade, burocrata de uma empresa de logística que adquiriu razoável reputação tornando grandes os pequenos problemas, argumentava com sua amante quando se impacientava com a precariedade dos laços afetivos que os uniam.
- Calma, Tavinho. Precipitação só vai complicar as coisas.
Era assim que ela, Ludmila D’Alessio Figueira, mulher de 30 e muitos que, se não conservava o viço da juventude que fazia os rapazes dirigirem-lhe comentários lisojeiros, ainda mantinha certo encanto, apesar de certa flacidez aqui e ali e das marcas de expressão que pareciam não estar ali no dia anterior, respondia aos apelos do amante para que não tomassem nenhuma atitude fora de hora.
Na verdade, Otávio tentava descobrir qual seria a hora propícia há quase sete anos, tempo em que eles mantêm relações às escondidas. Ludmila sempre encontrava uma desculpa inescapável para não regularizar a situação: a sogra que veio morar com ela e o marido, os problemas com drogas do primogênito, a situação do país, a falência de um rim do cunhado, a seita em que o primogênito se meteu, a sogra que se foi. E assim o tempo foi passando.
O fato é que Ludmila há muito perdeu também com Tavinho o frescor e o ímpeto do início da relação. O proibido virou rotineiro. O amante convertera-se em uma espécie de segundo marido. O tédio que a tudo corrói os transformara em um casal comum. Só não podiam passear de mãos dadas no parque, dividir o saco de pipocas no cinema, ir a eventos sociais, mas isso um casal comum também não faz. Se não fosse pelo veneno, elocubrava Ludimila, Romeu e Julieta estariam bocejando juntos em frente à tevê, e pensando que deveriam ter ouvido os conselhos dos pais.
Tavinho, por sua vez, dava-se conta desse estado degradante da relação, o que muito o incomodava. Sentia-se como se fosse o marido e, em sua imaginação, o outro é que era o amante. A voluptuosidade, o ímpeto, o mistério estariam agora ao lado do rival, enquanto a ele restavam a televisão e os bocejos de Ludmila. Decidiu dar o ultimato:
- Precipitação, Ludmila! Eu quero regularizar a situação agora!
Ludmila tentou o plano B. Aproximou-se carinhosa:
- Você está ansioso, eu entendo. Olha, ainda essa semana eu vou ter uma conversa com o Figueira.
- Essa semana, não. Hoje! E eu que vou ter uma conversa com o Figueira.
Otávio pegou o telefone e discou com decisão. Ludmila, paralisada, não conseguiu pensar num plano C.
- Alô. Por favor, eu gostaria de falar com o senhor Régis Figueira.
Pausa. A primeira barreira havia sido ultrapassada.
- Diga que é da... – Otávio pensou um instante: o jeito seria recorrer à empresa para furar o bloqueio da secretária. – Da Lógica Logística, assunto de interesse dele.
Novo lento e profundo silêncio. Ludmila olhava para as paredes do quarto em que se encontravam. Seu segundo lar. Nada seria como antes.
- Não pode atender agora?
Tavinho sentiu seu ímpeto inicial se esvair, como uma válvula que se abre e deixa escapar a pressão. Mas não se rendeu:
- Diga que eu volto a ligar.
E ligou mesmo, uma hora depois, sob o olhar preocupado de Ludmila. A secretária do Dr. Figueira informou que ele encontrava-se em reunião. Uma hora depois, a reunião não havia acabado. Tavinho ligou mais duas vezes. “Reunião da diretoria é fogo”, confidenciou a secretária, já íntima do Tavinho. Sugeriu que ele ligasse no final da tarde. Ele ligou. A secretária, um tanto constrangida, informou que o senhor Figueira saiu da sala irritado e passou por ela voando, indo embora da empresa.
- Meu Deus, preciso chegar em casa antes do meu marido! – exaltou-se Ludmila ao saber da informação.
Vestiu seus sapatos, arrumou o vestido, conferiu-se no espelho. Deu um beijo discreto em Tavinho e saiu, não sem antes dizer que tudo iria se resolver. Otávio observou a tudo desolado, com a nítida sensação de que Ludmila iria se encontrar com o amante.