julho 24, 2005

considerações extemporâneas

Primeira consideração: eu não sei o que é extemporânea. Sim, eu sei, eu poderia ir ao dicionário e resolver meu problema, mas, nesse caso, como eu abriria este tratado? A pergunta nos leva diretamente à segunda consideração: mais vale uma ignorância criadora do que uma certeza paralisante.
A única certeza que tenho, se não me engano, é que trata-se de um título de livro de Nietzsche, o filósofo que conseguiu a proeza de sacudir a filosofia e de ter cinco consoantes seguidas no nome. E que outro filósofo, Aldir Blanc, conseguiu a proeza de rimar com pizza de aliche.
Mas divago, e diz o sábio: “Devagar com o divagar”, o que pode ser considerada a terceira consideração, visto que o sábio sou eu mesmo. Voltando, portanto, à vaca fria – que jamais entendi o porquê de ser fria, e só remotamente o porquê de ser vaca, mas isso é assunto para outro estudo – logo salta aos olhos na palavra o prefixo ex. E vejam, senhores, que ex é tão prefixo quanto o 11 é para São Paulo, o 21 para o Rio e o “faz um 21”, que não é prefixo mas é um belo slogan. Você já se perguntou, sendo assim, qual é o sufixo do seu telefone?

Ex sugere algo que já foi, passada, e carrega normalmente um ar de coisa ruim: ex-esposa, ex-presidente, ex-terco, com a honrosa ex-ceção para a ex-sogra. Ex-temporâneo é, portanto, o temporâneo, provavelmente nocivo, que não volta mais. Outrossim, mal saímos do lugar, pois temporâneo permanece como enigma.
Evidente que a luz natural nos leva a crer que a palavra refere-se a tempo. Entretanto, e há sempre um entretanto em filosofia, não nos devemos deixar arrastar pelo mais premente. Se temporâneo significa tempo, então por que não se utilizou logo esta ao invés daquela, hein, hein? A palavra seria então Extempo, e indicaria o tempo que já foi, ou seja, sinônimo de passado, o que tiraria toda a graça. Ficaríamos aqui tecendo considerações sobre o passado, como a visita que fiz quando criança ao sítio do meu avô, o que não teria alcance literário nenhum, ainda que a visita ao sítio do meu avô tenha sido extremamente agradável.
Um caminho que costuma dar bons resultados – e se não os dá ao menos impressiona – é o da etimologia. “A ordem das palavras é a ordem do mundo”, já dizia o confuso Confúncio diante de tantos termos para significar a mesma coisa e outros que não significavam absolutamente nada, e vamos considerar esta a quarta consideração.
Cumpre então que procuremos em nosso enigma a raiz da palavra, o que está entre o prefixo e o sufixo. E o que está entre o prefixo e o sufixo? Ora, o fixo propriamente dito. “Dê-me um ponto fixo e eu faço mover o universo”, disse Archimedes (quinta consideração). Descontemos o exagero, visto que trata-se do mesmo Archimedes que saiu gritando eureca pelado pela ruas, mas o ponto fixo tem a vantagem de não ser móvel. Ou seja, mantém nosso foco, o que é o objetivo principal destas considerações.
Ora, outrossim, portanto, entre o prefixo ex e o sufixo porâneas temos... o tem. O velho verbo ter, ele mesmo, princípio de tanta discórdia, da separação do mundo entre os que têm e os que não têm, sedução aos insensatos que em todas as épocas adotaram o ter e preteriram o ser. Sim, senhores, eis aqui a raiz do problema, tão exata quanto a raiz quadrada de nove é três, a raiz de mandioca é saborosa e a raiz cúbica de 27 é... é... bom, deixa pra lá.
Não me estenderei mais. Aos que tem olhos para enxergar, ouvidos para ouvir, tato para tatear, e paladar para saborear a pizza de aliche, a verdade se revela. Considerações extemporâneas trata de um passado perigoso, onde o ter se sobrepôs ao ser, deixado para trás por força desta reflexão no qual dialogamos com outros grandes pensadores.
E aos céticos que liam essas inspiradas palavras considerando que davam voltas sem chegar a qualquer lugar, possivelmente tecendo pensamentos desabonadores ao seu autor, respondo com a sexta e última consideração: Enrolador é a p...

Posted by Tiezzi at julho 24, 2005 10:31 AM