Em um dia como outro qualquer, Ernesto entrou no elevador do seu prédio para ir ao trabalho. Quando apertou o botão do subsolo reparou pela primeira vez em um outro botão ao lado, que tinha um desenho de duas setas apontadas uma para outra. Curioso, apertou-o. Mal desconfiava que aquilo iria mudar sua vida.
O botão das setas fez com que a porta do elevador se fechasse antes do tempo normal. Ernesto descobriu que tinha esse recurso: em vez de esperar os 10 segundos que a porta levava para fechar-se, bastava usar o botão e o tempo seria reduzido para 3 segundos. Fez os cálculos: usava o elevador em média quatro vezes ao dia – para ir ao trabalho, voltando do trabalho, a descida noturna para um café ou cigarro na padaria da esquina, a volta da padaria. Em cada vez, economizaria 7 segundos. Total do dia: 28 segundos. O que equivale a 196 segundos na semana (pois mesmo no sábado e domingo usava o elevador 4 vezes) e 840 segundos em um mês de 30 dias. No ano, terá poupado incríveis 10.220 segundos, ou 170,33 minutos. Ou 2 horas, 50 minutos e 20 segundos!
Quando saía com seu carro, Ernesto descobriu que não era necessário que a porta da garagem estivesse completamente aberta para que ele passasse. O portão automático era lento. O processo de abertura levava 15 segundos, mas já no décimo segundo dava para passar. Calculou: 5 segundos por dia na ida, 5 na volta, 300 no mês, 1 hora, 49 minutos e 48 segundos no ano. Somado ao elevador, já seria uma economia de 4 horas, 40 minutos e 8 segundos ao ano.
Evidentemente que quando chegou ao trabalho percebeu que o processo todo se repetia. É claro que no elevador não podia sempre dispor do botão das setas porque outros funcionários – inconscientes do tempo que perdiam diariamente – retardavam o esquema. Mas achou justo considerar o mesmo valor para efeito de economia, já que no trabalho andava de elevador mais vezes: no mínimo havia a subida e descida do almoço. Portanto, se em metade das vezes conseguisse usar o botão salvador, seriam mais 2 horas, 50 minutos e 20 segundos economizadas. Com o estacionamento da firma, cujo portão era semelhante ao do seu prédio, mais 1 hora, 49 minutos e 48 segundos. Já estava em incríveis 9 horas, 20 minutos e 16 segundos que poderia ganhar a cada ano.
Mas Ernesto não parou por aí. Descobriu no trânsito uma rica fonte de lucro temporal. Ao abrir um farol, percebeu que levava preciosos 6 segundos até engatar e colocar o carro em movimento. O mesmo raciocínio valeria se não fosse o primeiro da fila, pois nesse caso os segundos são perdidos entre a saída do carro da frente e o dele.
Até sua casa, contou 31 semáforos, descontou uns 8 que estariam abertos e chegou à razoável média de 23. Dobrou o número, pois tinha que considerar a ida, e multiplicou pelos cinco dias úteis. Nos fins de semana, pegava uma média de 15 faróis por dia nos passeios com a família. Total: 260 por semana. A 6 segundos em cada, dá um tempo perdido de 1.560 segundos. No ano, são 81.120 segundos. Ou 1.352 minutos. Ou 22 horas, 31 minutos e 48 segundos.
Para Ernesto foi realmente um baque perceber que poderia economizar 31 horas, 52 minutos e 4 segundos. Ganharia mais que um dia de sua vida a cada ano com simples mudanças de atitude. Para ele, recuperar o tempo perdido passou a ser uma obsessão. Acordar 5 minutos mais cedo e ir dormir 5 mais tarde significava 60 horas, 49 minutos e 48 segundos ganhos ao ano. Dois minutos a menos no banho eram 12 horas, 9 minutos e 36 segundos. Almoçar e jantar alguns segundos mais rápido, encurtar o papo da hora do cafezinho, aproveitar os 15 minutos do intervalo do futebol na tevê, parar de catar milho e aprender a digitar mais rápido, colocar as contas no débito automático, comprar sapatos sem cadarço, leitura dinâmica. Até o sexo tem os seus minutos inúteis que poderiam ser cortados, com a concordância da mulher, é claro.
Colocou tudo no papel e teve uma inacreditável surpresa. A cada ano, com seu programa de economia de tempo, já batizado PET, ou PMT, programa de metas temporais, pois resolveu deixar os dois nomes para não perder tempo na escolha, iria economizar 6 dias, 4 horas, 37 minutos e 44 segundos!
Foi um choque. Daqui para frente sua vida iria mudar. Estava exultante.
Mas logo entristeceu. A constatação lhe trouxe a perspectiva contrária. Pensou em quanto tempo havia perdido no passado. Ernesto tem 45 anos. Uma vida de muitos elevadores, faróis, sono, cafezinhos, futebol, computador, sapatos. Com um cálculo aproximado, poderia considerar os mesmos 6 dias, 4 horas, 37 minutos e 44 segundos como tempo perdido em cada um dos anos que viveu. Pegou a calculadora com receio. Descobriu a terrível realidade: já havia desperdiçado 278 dias, 15 horas, 47 minutos e 57 segundos de sua vida.
Se tivesse apertado o botão do elevador antes...
A melancolia não se afastou mais. Por conselho da mulher e dos amigos, Ernesto foi parar no analista. Lá despejou suas angústias. Sentia-se melhor a cada seção. A não ser, claro, quando a terapeuta dizia que seu tempo havia acabado. Nessa hora, saltava do divã e ajoelhava-se aos pés dela, implorando: “Só mais dois minutos! Só mais dois minutos!”