O Outro
Briga de mãe e filho. Ânimos exaltados. Em sua velha poltrona, o idoso pai parecia estar distante, embora de vez em quando murmurasse:
- Eu falei que a gente tinha que ter pegado o outro.
O filho, cabeça quente, não prestava atenção às caduquices do velho. Gritava com a mãe. E o pai insistindo:
- O outro era bem melhor. A gente escolheu errado.
A discussão se prolongou. O filho nervoso, a mãe chorando, o pai falando do outro.
Em dado momento o filho, quase fora de si, perguntou aos berros que diabo era aquilo que o pai estava repetindo. A gritaria deu lugar a um enigmático silêncio.
O pai quis falar, a mãe não deixou, o filho exigiu. Resolveram contar tudo. O filho era adotado.
O rapaz perdeu o rumo. O pai, aproveitando que finalmente o nó havia sido desfeito, desabafou. Disse que todos esses anos não perdoava a esposa por ela não ter lhe escutado no orfanato, 25 anos antes. Havia um garoto sentado no chão, perto da janela, um tanto afastado dos demais. Tinha cabelo encaracolado e brincava concentrado com seu peão. O pai queria ter ficado com aquele, a mãe é que decidiu pelo escolhido.
- Tá vendo? O outro não ia estar te dando trabalho – sentenciou o velho.
O filho saiu de casa atônito. Pai e mãe se olharam. Com a convivência, aprenderam a dialogar pelo olhar. A mãe entendeu o que o pai estava querendo dizer. E com o olhar respondeu: Não, não dá mais pra trocar.
***
Que é que há, velhinho?
Estimulado pela mãe, o filhinho correu pela sala e se atirou no colo do pai:
- Pai, o que você quer ganhar de Dia dos Pais?
O pai fez suspense, olhou para cima, como se estivesse para tomar uma importante decisão de negócios.
- Uma fantasia do Pernalonga.
A mãe foi a primeira a ri, o filho demorou um pouco mais para entender a brincadeira. Mas o pai manteve a seriedade.
- Não é piada. Eu quero uma fantasia do Pernalonga.
- Por que, pai? – o filho tirou a pergunta da boca da mãe.
O pai, bom advogado, tinha sempre um argumento certeiro.
- Eu lhe pergunto por que quando você escolhe seus presentes?
Nos dias anteriores ao Dia dos Pais, mãe e filho viram que era pra valer. Rodaram a cidade atrás de uma fantasia do Pernalonga do tamanho do pai. Só achavam Pernalonga de perna curta. Acharam uma do Frajola, mas o pai, irritado, reclamou que “já disse” que tinha que ser do Pernalonga. As visitas às lojas só não foram completamente frustradas porque o filho acabou ganhando um escudo do Capitão América que há muito ansiava.
Enfim, numa loja de fantasias escondida em uma galeria, acharam um Pernalonga tamanho G. O vendedor, de pouco tato, disse que aquela era uma das preferidas por quem queria ficar bêbado nas festas da firma. Será que era isso que o pai pretendia?
Não era. No Dia dos Pais, abriu seu presente com os olhinhos brilhando. Vestiu a fantasia na sala mesmo. Tirando o rabo meio curto, era perfeita. A mãe constrangeu-se, o filho entrou na onda e brincou com o pai. O pai ainda pegou uma cenoura na geladeira e ficou mastigando com os dentes do canto. No meio da tarde não estavam mais achando graça. O pai guardou a fantasia no armário e nunca mais usou.
***
Vida de artista
Gostavam de assistir tevê juntos, lado a lado no sofá. O garoto pequeno riu quando o pai, ao ver um artista se apresentando, vaticinou:
- Artista é tudo veado!
O tempo passou, o garoto cresceu, o pai ficou mais velho. O sofá continuava o mesmo. E o hábito também: os dois ali, naquela fraternidade televisiva. A máxima de que “artista é tudo veado” tinha perdido a graça, mas o pai continuava a repeti-la. Adolescente, o filho começou a se incomodar. Descobriu o motivo: queria ser artista. Mas a sentença paterna o oprimia: Será que ele era veado?
Jovem, achou que era chegada a hora de reagir, se rebelar. Muitos artistas desfilaram pela tela – alguns bem veados, é verdade – e o filho não criava coragem para contestar a sabedoria paterna.
Um dia, apoiado pelos amigos do grupo de teatro, ele decidiu: de hoje não passa. Mais tarde, na tevê um cantor de camisa justa mexia os quadris. O pai balançava a cabeça. O filho sabia que a frase estava vindo. Respirou fundo. Tinha que ser convicto, olhos nos olhos. Sem conflitos, apenas como dois homens que trocam opiniões.
O cantor terminou a apresentação e agradeceu o público. Daquela vez o pai parecia ainda mais inconformado:
- Artista é tudo veado!
- Pára, papai! Que coisa!
A voz do filho saiu esganiçada, tensa, mais aguda do que o normal. Talvez por estar muito tempo represada, mas o fato é que pareceu algo muito semelhante a um chilique.
O pai não respondeu. Depois daquele dia, viram tevê lado a lado no sofá com bem menos freqüência. E nas vezes em que o faziam, o pai nunca mais falou que artista é tudo veado.
Mas que pensou, pensou.