janeiro 10, 2006

a velha louca

Foi criado pelos tios porque os pais... bem, não convém contar história tão triste. Como se não bastasse, o tio apreciava brincadeiras sarcásticas, e repetia para o guri diariamente, com olhos arregalados e tom apocalíptico, para ele jamais – jamais! – abrir o armário do quartinho do fundo. “Senão” – o tio fazia uma pausa, olhava para os lados como se estivesse sendo vigiado – “a velha louca sai de lá e arranca suas orelhas”.
Nem é preciso dizer que aquilo causou profunda impressão ao garoto de 9 anos. Tinha já a sensibilidade aguçada pela perda dos pais naquele acidente... deixa pra lá. Nunca se aproximou do tal armário.

Na escola, perguntava-se se alguma das suas professoras não seria a velha louca que teria escapado. Quando expôs esse medo ao tio esperando conforto, ouviu apenas um “quem sabe, quem sabe”.
Cresceu vendo a velha louca em tudo. O tio contribuía. Cada desastre, cada catástrofe, cada acidente, incidente, terremotos, furacões, era coisa de alguma velha louca que saiu de armários que jamais deveriam ter sido abertos. Pensou nos pais. Já era maduro para entender que tinha sido coisa da velha louca.
Jovem, estudante de belas artes, ficou profundamente impressionado com o auto-retrato de Van Gogh. Sem orelha. Será? Ligou para o tio. Já não moravam na mesma cidade. O tio continuava na velha casa do interior. Protegendo o armário, dizia. Contou sobre Van Gogh. O tio disse que o retrato havia sido pintado pela velha louca. “Como Van Gogh olharia para si mesmo?”, argumentou. O sobrinho desligou atônito.
Casou-se, separou-se, arrumou empregos, foi despedido. Passou a colecionar fracassos. A sombra da velha louca a perseguia. Fez análise, começou a dar resultados, mas certo dia caiu em si que a psicóloga era velha. Nunca mais voltou.
Um dia recebeu a notícia que o tio estava muito doente. Ele esteve ao seu lado até o último suspiro e as últimas palavras: “A velha louca...”
Carregou aquele medo atávico pela vida afora. Passou pela idade da razão e chegou à idade em que a razão vai embora. Estava velho. E só. As jovens não o queriam, e as velhas era ele que não queria. A essa altura, já tinha consciência de que havia deixado de viver por causa de uma fantasia, uma alucinação da mente doentia do tio.
Tudo o que queria agora era partir em paz. Sabia que tinha uma missão a cumprir.
A velha casa estava trancada. Há anos ninguém entrava ali. O pó do tempo se acumulava nos móveis. Lembrou de quando corria por aquelas dependências. Quando aprontava, o tio dava um jeito de mencionar a velha louca. Um método pedagógico pelo qual ele pagou caro.
Caminhou com suas pernas fracas até o quartinho. O armário ainda estava lá, o mogno escuro e imponente. Sua vida ficara trancada ali dentro. Ele colocou a mão na maçaneta e sentiu medo. Mas girou-a com decisão e abriu o armário.
Aí a velha louca saiu lá de dentro e arrancou suas orelhas.

Posted by Tiezzi at janeiro 10, 2006 9:36 AM