março 15, 2006

a arte do desencontro

Eram oito à mesa. Três casais e a Flávia e o Juraci solteiros. Os outros forjaram o jantar para que a Flávia e o Juraci se conhecessem. A Margareth arriscou um prognóstico:
- Casal que eu apresento jamais se separa.
A Flávia e o Juraci coraram.
- E o Beto e a Fernanda? – lembrou o Nunes.
- Que é que tem? – quis saber a Margareth.
- Você os apresentou e hoje estão se divorciando.
- E na Justiça! – acrescentou o Bicalho.
Margareth se serviu de mais salada como quem diz “tudo tem uma exceção”. (Se é que é possível o ato de se servir de salada significar alguma coisa.)
A verdade é que o esforço coletivo mais atrapalhava do que ajudava na missão. A Flávia e o Juraci mal conseguiam se olhar, quanto mais trocar palavras. Os outros seis observavam cada movimento, cada reação. Os estímulos não faziam efeito.
- Juraci, eu contei para a Flávia quem é você no chá-chá-chá – tentou a Belinha.
- Pois é – limitou-se a responder o Juraci. E se serviu de mais salada.
- A Flávia gosta muito de dançar. Não é, Flavinha?
- É.
A cada diálogo lacônico se seguia um silêncio prolixo. Houve tentativas de puxar diversos assuntos: política, futebol, aviação civil, novela, o trabalho do Nestor, a lentidão da Justiça, misticismo, as férias do Valdir, a mancada que o Nestor deu com o chefe, o atrevimento da vizinha do 402. O Zé Miguel tentou expor sua teoria sobre a influência do Big Bang no Bang Bang, mas se atrapalhou no meio. O Nestor começou a se deprimir e se serviu de mais salada.
O Juraci e a Flávia escorregavam cada vez mais na cadeira, querendo sumir. O Valdir arriscou um chiste dizendo que os dois queriam ficar a sós embaixo da mesa. O constrangimento aumentou.
Às 10h30 o Bicalho perdeu a paciência:
- Pra mim chega. Esses dois não vão desencalhar nunca – fez uma pausa e emendou. – E eu não agüento mais comer salada!
A Margareth aproveitou a deixa para ir buscar o faisão no forno. A Helena tentou colocar panos quentes.
- Calma, Bicalho. É o jeito deles.
O Valdir pôs a mão sobre o braço da esposa.
- Deixa, deixa. Alguém tem que falar.
Seguiu-se uma saraivada de comentários, críticas, reprimendas, observações sinceras sobre a Flávia e o Juraci. Às vezes falavam para eles, outras conversavam entre si como se não estivessem presentes. O ponto central era que aquele comportamento anti-social estava começando a ficar desagradável.
- Começando? A gente não suporta esses dois há anos! – corrigiu o Bicalho.
A Belinha tentou ser compreensiva.
- A gente achou que talvez se vocês se conhecessem... Afinal...
- ... são duas múmias – completou o Zé Miguel.
A explosão de sinceridade tornou o jantar até divertido. E, quem sabe, o método radical não surtiria efeito? Vai que o Juraci e a Flávia resolvessem reagir e liberar o humano, demasiado humano, que vivia dentro deles? Quem sabe o jantar não terminava com o Juraci tomando uma atitude, jogando a Flávia em cima da mesa e a agarrando ali mesmo, entre o faisão e os tomates cereja? A Margareth decidiu provocar.
- E aí, ô dois. Vocês não vão falar nada, não?
A Flávia ameaçou, mas como se tivesse se engasgado com a palavra desistiu e baixou a cabeça. O Juraci sentiu-se injustiçado. Encheu-se de coragem para responder.
- Pois é.

Posted by Tiezzi at março 15, 2006 1:17 AM