Um dia não se agüentou mais e abriu o jogo com a esposa.
- Leila, a gente precisa dar um jeito no Miguelzinho.
- Que é que tem o menino?
- Você sabe muito bem o que ele tem.
Silêncio. Leila sabia muito bem o que tinha o Miguelzinho. O garoto andava muito esquisito. De uma hora pra outra inventou de criar um conjunto de boleros.
- Deixa ele, Rodolfo. Isso passa – a mãe tentava acalmar o marido. E se acalmar.
- Leila, isso não é normal! Os garotos da idade dele têm banda de rock, fazem barulho na garagem, arrepiam o cabelo, andam de jeans rasgado. Mas o nosso filho, Leila...
O Miguelzinho andava de terno, às vezes de fraque. Penteava os cabelos para trás com gumex, porque gel era coisa “dessa geração que não sabe valorizar o que é bom”.
- Fala baixo, Rodolfo. Quer que o nosso filho ouça?
- E daí que ouça? A gente não pode fingir que não está acontecendo nada – a voz do pai tornou-se chorosa: - Meu Deus, olha o que foi acontecer com o meu filho.
- Cala a boca, Rodolfo. O Miguelzinho está vindo aí. Vamos resolver isso com calma.
O filho entrou na cozinha cantarolando. “Reloj, que tiene em sus braços, hace esta noche perpétua.”
- Filho, a gente precisa conversar.
- Agora, mãe? Eu marquei ensaio com o Hector e o Julio.
Como não achou ninguém de sua idade para participar, Miguelzinho formou o conjunto com o Hector, um violão cristalino mesmo aos 62 anos, e o Julio, um virtuoso das maracas que nem a tremedeira crônica nas mãos foi capaz de derrubar. Perfume de Gardênia, era o nome do conjunto.
O pai se enfezou.
- O Hector e o Julio podem esperar.
- É “Rúlio”, pai. Já falei.
- Tanto faz!
- Calma, Rodolfo.
- Basta, pai. No hay porque levantar la voz. Tranquilo.
O filho agora inventara de encaixar um castelhano no meio das frases. A última novidade era o tranquilo, pronunciado sem o trema.
- Filho, nós te fizemos alguma coisa? A gente deixou de te dar apoio, carinho? Pode falar, meu filho.
- Madre, madre... ustedes son maravillosos. Quiçá todos pudessem ter uma família como a minha – e, para completar, cantarolou: - Quiçás, quiçás, quiçás...
Foi a gota d’água para o pai explodir.
- Pode parar com essa palhaçada. E quer saber? Eu te proíbo, Miguelzinho. Enquanto você morar sob este teto está proibido de ouvir, cantar, tocar e muito menos dançar bolero.
- Ninguém puede barrar mis sueños – gritou de volta o Miguelzinho. Mas logo depois sorriu e puxou o papel e a caneta: - Opa, isso dá um bolero.
O pai desabou na cadeira. A mãe argumentou que repressão só iria piorar. O Miguelzinho podia fugir de casa e parar, sei lá, no palco de algum clube noturno.
- Mãe, posso ir?
- Olha aí – falou a mãe tranqüilizando o marido. – O nosso filhinho é educado, pede autorização. E para o garoto: - Vai, meu anjo, mas não demora.
- Tranquilo.
O menino foi saindo, sob o olhar deprimido do pai. Na porta, Miguelzinho deu meia volta improvisando um passo de dança.
- Ah, e antes que yo me olvides. A partir de hoy ustedes podem me chamar de Miguelito?