março 4, 2007

sobe!

- Desce?
- Desce.
Silêncio.
- E esse tempo, hein?
- Pois é, que coisa.
Silêncio.
- Você...
- Será que...
- Opa, desculpe. Pode falar.
- Não, fala você.
- Faço questão.
- Primeiro as damas.
Ela sorriu.
- Você é meu vizinho de cima, né?
- Não sei. Depende.
- Depende?
- Você é minha vizinha de baixo?
Ela riu.
- Prazer, Carlos.
- Amanda. O prazer é meu.
Silêncio.
- Esse elevador, hein? Sempre demorado.
- Hoje até que eu estou gostando.
- Ah, é? Por quê?
- Mais tempo pra gente se conhecer.
Ela corou. Térreo.
- Você vai descer?
- Se você não se importa, te acompanho até a garagem. Vai que você se perde no caminho.
Ela riu. Mexeu nos cabelos. Garagem.
- Então tá.
- A gente se fala.
Ela saiu. Quando a porta estava quase fechando, tornou a abrir. Ela sorria, sem graça.
- Acho que eu esqueci uma coisa no apartamento. Vou ter que voltar.
- Aproveita que está subindo.
Ela entrou. Silêncio.
- O tempo está esquentando, né?
- Uma loucura.
- Você passou do térreo de novo.
- Não sei onde eu ando com a cabeça.
Silêncio.
- Aliás, sei.
- O quê?
- Onde eu ando com a cabeça.
- Onde?
- Em você.
Ela perdeu a fala.
- Olha, eu sei que é loucura, eu e você nesse cubículo, mas é que eu tenho uma certa atração por lugares fechados. Você me entende?
- Eu entendo! Claro que eu entendo! Eu sinto isso também. É uma espécie de...
- ... claustrofobia ao contrário.
- Isso! Essa coisa meio sufocante me... me... como é que eu digo? – ela fez uma pausa. – Me excita.
Ele pegou nos braços dela.
- Eu esperei minha vida inteira por alguém que...
A porta se abriu. 16º.
- Você vai...
- Não. Esqueci o que eu tinha esquecido.
Ele sorriu. Ela:
- Vai descer?
- Desce.
- E depois?
- Sobe.
- Hummm.
Depois se encontrariam nos apartamentos de ambos, mas não era a mesma coisa. Resolveram não forçar. Mas todas as vezes que se encontravam na garagem ou na área comum do edifício, trocavam olhares cúmplices. Ele então se aproximava, no ouvido dela:
- No social ou de serviço?

Posted by Tiezzi at março 4, 2007 11:12 PM