março 4, 2007

o duelo

Jack Packard era o sujeito mais durão que o Velho Oeste já conheceu. Perto dele, John Wayne parecia interpretar a noviça rebelde.
Corria a lenda de que Packard tinha uma flecha atravessada no crânio, resultado de um embate com uma tribo inteira de índios. Packard – o facínora, o sanguinário, o vil, outros nomes pelos quais era conhecido – teria arrancado o pedaço da flecha que ficou para fora de sua cabeça e jurado que mataria um índio a cada vez que precisasse tomar aspirina. Quando perguntado o que havia feito com o pedaço de flecha, Jack, o maldito, dava uma risada grossa como um rugido, cuspia no chão e respondia que melhor sofrer de dor de cabeça do que de hemorróidas, como o índio que o havia atingido.
Dizem também que certa vez um garçom tropeçou quando ia servi-lo, e derrubou scotch nas botas de Jack, o assassino. Jack tinha especial apreço por suas botas. Volta e meia Jack anunciava aos caras do saloon que tinha sangue índio. Os caras do saloon fingiam surpresa, pois já haviam ouvido aquela história um milhão de vezes, mas quem iria avisar Jack Packard que ele estava sendo repetitivo? Então um deles, seguindo o script, levantava a lebre: "Sangue índio, Jack?" “Sim, nas botas.” E Jack rugia, sendo logo seguido pelos caras do saloon.
Por isso, o garçom ficou tão pálido que um dos clientes sugeriu que ele esperasse morrer primeiro para só depois adotar cor de defunto. Mas, para surpresa de todos, Packard, o cruel, levantou-se e amigavelmente colocou a mão no ombro do garçom: - Não tem problema. Acidentes acontecem.
O garçom, sentindo que havia reencarnado, emitiu um suspiro profundo. Foi quando Packard, o perverso, tirou sua arma do coldre e disse que ela mesmo já havia disparado por acidente várias vezes. Quando a bala atravessou o cérebro do garçom, espalhando miolos nos pratos dos clientes, Jack, o desumano, teria comentado: - Oh, droga. Preciso mandar essa coisa pro conserto. Bem, pelo menos vamos ter proteínas.
Pois bem, a história que nos chegou é de que certa manhã anunciaram que um forasteiro havia desafiado Jack, o invencível, para um duelo. Ninguém sabia de onde tinha vindo tal forasteiro, mas todos sabiam para onde ia: o inferno. Jack, o meticuloso, era capaz de acertar com uma bala um pernilongo que estivesse picando um companheiro a 30 metros de distância. A 50 metros, não garantia que matava o pernilongo, mas deixava aleijado. Era mais veloz no gatilho que as asas de um beija-flor; mas certa vez um bajulador fez esse comentário a ele e Jack, o bruto, achou que se tratava de zombaria. Jack, o insano, o furou com doze balas em menos de cinco segundos. E olha que teve que parar para recarregar o pente.
E alguém queria duelar com ele.
O desafiante se chamava Carl, logo batizado como O Suicida. Na frente do saloon, ao cair da tarde, o mestre de cerimônias apresentou Jack Packard, o bruto, o cruel, o infame – sim, Jack considerava “infame” um elogio – 105 duelos e 105 vitórias “já contando a de hoje”. Ao apresentar Carl, apenas olhou para ele e disse: “Deus guarde a sua alma.”
Frente a frente, Jack segurou o cabo de seu revólver. Carl fez o mesmo. Jack tinha o instinto de morte. Para ele, matar era tão vital quanto comer, embora não comesse tanto quanto matasse. Packard, o imundo, só aguardava que Carl piscasse para nunca mais abrir os olhos.
Carl puxou a arma rapidamente, apontou para Jack e... tomou tantos tiros que parecia estar duelando contra um exército inteiro. Seu último pensamento foi “de onde ele tirou essa metralhadora?” Sua última palavra, já de joelhos e prestes a tombar para a eternidade, foi: “Papai.”
Um oooohhhhh geral ecoou pelo Velho Oeste. Então aquele forasteiro era o filho bastardo que Jack havia tido quando violou uma mulher num condado próximo? O filho desaparecido que havia virado lenda, que havia praticado a sua primeira morte porque não gostou do jeito como um adulto fez “bilu-bilu” em seu queixo? Sim, o sucessor de Jack, o rude, o bárbaro, o escabroso, estava morto. E pelas mãos do seu próprio pai.
No silêncio da tarde Jack Packard aproximou-se de Carl. Com suas botas sanguinárias, virou o corpo inerte. Só então se deu conta de que o forasteiro tinha o rosto muito parecido com o dele – o rosto por baixo das cicatrizes, claro. O público se aproximou para ver a cena inédita: Jack, o insensível, se emocionaria?
Mas Jack Packard apenas balançou a cabeça e comentou:
- Filhos... Sempre dando trabalho.

Posted by Tiezzi at março 4, 2007 11:18 PM