março 4, 2007

o outro

Briga de mãe e filho. Ânimos exaltados. Em sua velha poltrona, o idoso pai parecia estar distante, embora de vez em quando murmurasse:
- Eu falei que a gente tinha que ter pegado o outro.
O filho, cabeça quente, não prestava atenção às caduquices do velho. Gritava com a mãe. E o pai insistindo:
- O outro era bem melhor. A gente escolheu errado.
A discussão se prolongou. O filho nervoso, a mãe chorando, o pai falando do outro.
Em dado momento o filho, quase fora de si, perguntou aos berros que diabo era aquilo que o pai estava repetindo. A gritaria deu lugar a um enigmático silêncio.
O pai quis falar, a mãe não deixou, o filho exigiu. Resolveram contar tudo. O filho era adotado.
O rapaz perdeu o rumo. O pai, aproveitando que finalmente o nó havia sido desfeito, desabafou. Disse que todos esses anos não perdoava a esposa por ela não ter lhe escutado no orfanato, 25 anos antes. Havia um garoto sentado no chão, perto da janela, um tanto afastado dos demais. Tinha cabelo encaracolado e brincava concentrado com seu peão. O pai queria ter ficado com aquele, a mãe é que decidiu pelo escolhido.
- Tá vendo? O outro não ia estar te dando trabalho – sentenciou o velho.
O filho saiu de casa atônito. Pai e mãe se olharam. Com a convivência, aprenderam a dialogar pelo olhar. A mãe entendeu o que o pai estava querendo dizer. E com o olhar respondeu: Não, não dá mais pra trocar.

Posted by Tiezzi at março 4, 2007 11:22 PM