Hoje é chique gostar de cinema nacional, mas eu já gostava no tempo em que a fotografia dos filmes parecia ter sido revelada num balde de cândida*. Assistia para prestigiar a cultura nacional, pilar central da identidade de um povo, e para ver se rolava alguma mulher pelada. Nisso, acabava me deparando com diálogos inesquecíveis que moldaram minha formação literária. Nesta seção vou lembrar de alguns.
Começando por Eu Te Amo, do Jabor, que simboliza o cinema brasileiro da época. Tem a Vera Fischer e a Sonia Braga sem roupa a maior parte do tempo, o Pereio, e a história de dois personagens que travam uma batalha verbal fechados em um apartamento, escolhido para significar o aprisionamento das ilusões e porque a produção não tinha dinheiro.
O filme é um compêndio de diálogos memoráveis. Um deles: Sonia Braga está na rua desesperada, tentando impedir a partida de seu amado Tarcisio Meira. Meira entra num táxi e se manda, deixando Sonia aos prantos.
Se fosse cinema clássico, a cena estaria acabada, pois cumpriu sua função. Mas não. Jabor vai com a câmera junto do personagem secundário dentro do táxi, e ainda dá voz a um mais secundário ainda: o taxista. A cena não tem nada a ver com o andamento da história, mas permite que o taxista dê o seu recado. Diz ele, ante o olhar de saco cheio do Tarcisio Meira:
(taxista gargalha) É isso aí, meu capitão. É isso aí, meu capitão. Mulé é um problema. Mulé é um problema. Eu mesmo tenho cinco mulé na noite, e de vez em quando arrio o cacete ni uma que é pra não sair do meu riscado. (gargalha mais). É isso aí, meu capitão.
* Essa é de autoria do Lusa Silvestre, da revista Vip
Quando o jogador Edilson ficou fazendo palhaçada com a bola numa final contra o Palmeiras, boa parte da crônica esportiva (Juca Kfoury, por exemplo) absolveu - e até enalteceu - o "espírito irreverente do futebol brasileiro". Domingo o meia Tevez da Argentina fez até menos palhaçada contra o Brasil. E agora? Suponho que, por questão de coerência, os mesmos cronistas reconheceram no Tevez o espírito irreverente do nosso futebol.
O garotinho de O Sexto Sentido ensinou que os mortos não sabem que estão mortos. Se isso for verdade, fico imaginando como seriam os instantes derradeiros de um homem, quando o auto-engano atinge seus limites.
Tive uma noite horrível. Não conseguia pegar no sono, estava me sentindo meio mal. Dormi e acordei várias vezes. Dormia e acordava, dormia e acordava. Felizmente uma hora dormi e não acordei mais.
Puxa, como é legal ver as pessoas falando bem da gente. Mesmo esse padre, que eu nunca vi na vida, falando das minhas qualidades. Que bom ouvir tantos elogios... Ei, vai jogar terra na tua mãe!
Eu não era muito de curtir literatura pela internet. Primeiro porque só leio na cama ou no banheiro, e era difícil levar o monitor para esses dois lugares. Aí veio o livro dos wunderblogs e descobri que os melhores textos literários não estavam nos livros, mas na rede. Leia Carnaval dos Animais, de Fabio Danesi Rossi, e O Homem que Sabia Djavanês, de Ruy Goiaba, e vejam se não tenho razão.
Foram descobertas fotografias de outra funcionária do Ministério da Agricultura em poses obscenas. O Ministério estuda providências a tomar. Uma delas seria mudar o nome para Ministério da Pecuária.
O mais estranho no debate dos filósofos Gianotti e Marilena é que o ponto central da discórdia foi o termo "imoralidade constitutiva da política brasileira". A Marilena atribuiu esse conceito, criticando-o, ao Gianotti, que o renegou. Os dois estão errados. O conceito é perfeito: "imoralidade constitutiva da política brasileira". Se nenhum dos dois quer a autoria, eu quero.
Recentemente acompanhei um debate entre os professores José Arthur Gianotti e Marilena Chauí, do departamento de Filosofia da USP, nas páginas da Folha de S. Paulo. Emocionante. Gianotti mandava um jab kantiano na cara da Marilena, que de pronto devolvia com uma cuspida spinoziana. Os professores me ensinaram a xingar com elegância e com o intelecto. Não lembro bem os termos, mas reproduzo abaixo mais ou menos como foi. Entre parênteses, o subtexto do diálogo.
Gianotti - A professora Marilena, a despeito do seu brilho intelectual, tem padecido de uma visão interpretativa desfocada a respeito do atual quadro social (A Marilena só tá falando merda).
Marilena - Tenho o privilégio de desfrutar do convívio intelectual do professor Gianotti desde os tempos em que fui sua aluna, o que não significa necessariamente o alinhamento com as idéias expressas em sua obra (Conheço este imbecil não é de hoje e sei que só escreve bosta).
Gianotti - Embora eu seja um defensor inconteste da livre manifestação opinativa, ainda que essas manifestações nada tenham a ver com o que defendo, como nos lembrou Voltaire, acredito que há que se deixar sempre espaço para uma adequada reflexão prévia, indispensável para o verdadeiro debate (Fica na tua aí, ô vagabunda).
Marilena - Bem lembrada pelo professor Gianotti as virtudes da prudência argumentativa. Mas bem sabe o professor que há uma longa tradição filosófica que nos fala de formas apologéticas mais contundentes (Se encher meu saco, te meto a mão na cara).
Gianotti - Estou de acordo com a professora Marilena, ressaltando que este tipo de debate por ela mencionado por vezes apresenta resultados bastante salutares (Vem, vem!)
Marilena - Suponho que com essa concordância o professor Gianotti, imbuído de sua vasta percepção analítica, esteja também ciente do alcance que este tipo de diálogo filosófico pode apresentar, ainda que por vezes tome caminhos turbulentos (Tu tá forgado...)
Oi, people.
Aqui é o Everaldo. Mas podem me chamar de Ever. Ever Aldo. Para sempre Aldo. Ai, não foi o máximo essa? Bom, mas vamos deixar de tititi e tótótó e vamos direto ao que interessa. Eu sou o internet designer contratado que mudou a cara desse site. Ai, people, fala sério, aquele verde-azeite-de-padaria, tudo quadrado, um horror, coisa do passado que não volta mais. Bom, o caso é que eu botei umas cores mais suaves que simbolizam a leveza do texto, um azulzinho que simboliza aquela pitada de gargalhada e aqui em cima ó, tão vendo, uma fotinho recortada de uma plantinha que não simboliza porra nenhuma mas que eu achei um luxo. Artista não tem que ficar dando explicação de tudo o que faz, é ou não é? Eu só dou explicação para o imposto de renda e para o Carlinhos, e mesmo assim só quando eu apronto muito. Bom, agora eu vou saindo de fininho porque eu entrei com uma senha nova que eu botei depois de consultar a numeróloga e meu cliente não tá nem sabendo. Não podia perder a chance de fazer a propaganda, é ou não é? Quem precisar dos meus serviços sou internet designer, amestrador de poodle, manicure e corro na São Silvestre todo ano. Essa última coisa não tem nada a ver mas eu falei do mesmo jeito. People, adorei todos vocês mesmo sem tes conhecerem. Quem precisar, me chama. Me chama, me chama, me chamaaaaaaa.
Quando eu era criança achava os filmes do Zé do Caixão um lixo. Na minha inocência, dava risada de tão toscos que eram.
Quando cresci comecei a ouvir que Zé do Caixão era cult. Demorei a entender o que isso queria dizer, mas percebi logo que tratava-se de uma grande virtude. Eu mudei. Tanto que na última mostra de curtas fui ver um filme do Zé do Caixão. Misturei-me com seus admiradores, com medo que descobrissem que o gênio de hoje tinha sido esculhambado por mim no passado. Durante o filme, admirei a estética trash, a capacidade inventiva com recursos escassos. Na saída, pensei no quanto evoluí culturalmente. Mas uma voz em mim que não silenciava me dizia: "Puta filme tosco."
Quando eu era criança achava o Walter Hugo Khoury um puta chato. Tá certo que ele era um dos diretores que mais colocava mulher pelada em cena. Duro era entender como um sujeito cercado de belas mulheres, numa baita mansão e ainda com a cara do Tarciso Meira podia ter crises existenciais.
Quando cresci comecei a ouvir que o Khoury era o Bergman brasileiro, que sabia como ninguém traduzir as angústias das classes abastadas e vazias. Passei a admirá-lo. Só nunca entendi como é que o Mauro Mendonça se recusou a comer a Xuxa em Amor, Estranho Amor.
O Brasil está de joelhos diante do capital especulativo internacional. Precisamos sair dessa situação imediatamente, antes que o capital especulativo internacional resolva abrir a braguilha.
O problema de dividir intimidade com alguém é que acabamos revelando o verdadeiro idiota que somos.
Não sei como fazer para ser um gênio, mas um bom começo é desistir de ser um gênio.
- Alô?
- Alô? É o Assunção?
- Ele mesmo. Quem tá falando?
- Como assim? Não tá reconhecendo minha voz?
A voz era grave e séria.
- Você vai me desculpar, mas... não tô reconhecendo.
- De ontem à noite, tá lembrado?
Ontem à noite? O que tinha feito ontem à noite? Ele se lembrava que deu uma saída para tomar uma cerveja no bar da esquina e... mais nada.
- Rapaz, não leve a mal, mas é que agora me deu um branco...
- Também, com o porre que você tomou.
A voz agora parecia mais descontraída. Sim, o porre. Bebeu demais e estava com ressaca amnésica.
- Ah, o porre. É, acho que bebi um pouco além da conta.
- Um pouco? Aquilo é que é bebedeira. Nem imagino o que podia acontecer se eu não estivesse por perto.
- Acontecer? Como assim?
- A briga, não tá lembrado? Quer dizer, a briga que não houve.
- Quem brigou?
- Ninguém brigou. Quer dizer, você não brigou porque eu não deixei. Vai dizer que não lembra que você começou a invocar com o pessoal da mesa ao lado?
- Eu fiz isso?
- Não só fez como eram três na mesa ao lado. E três pitbulls, desses que passam o dia na academia.
Preciso parar de beber, ele pensou. Na dúvida, conferiu se não tinha nenhum machucado grave ou fratura. O da voz grave continuou.
- Tive que usar muita lábia para convencer eles a não te espancarem. Isso com você gritando que os três eram caso um do outro.
- Pô, rapaz, vou ficar te devendo essa.
- Não tem de quê.
- Bom, ainda bem que o pior não aconteceu. Então, mais uma vez valeu e a gente se fala...
- Pera aí, Assunção. E sobre aquele nosso assunto?
Assunto? Não se lembrava de assunto nenhum.
- Ainda tá de pé, né?
- Acho que tá. Quer dizer, tá - respondeu Assunção, sem graça.
- Ótimo, então vou terminar de arrumar minhas coisas e em vinte minutos estou aí.
- Pera aí, pera aí. Como assim? Você vai vir aqui?
- Ué, claro. Pra eu morar aí eu vou ter que ir, certo?
- Morar? Que história é essa?
A voz ficou ainda mais grave e mais séria. E irritada.
- Ô, Assunção, não lembrar dos pitbulls eu até entendo, mas não lembrar de tudo o que aconteceu com a gente?
- Com a gente? O que aconteceu com a gente?
Depois de um silêncio a voz desatou a rir.
- Ah, Assunção, mais uma das suas. E eu quase ia caindo. Tô aprendendo a te conhecer, hein?
- Então, se a gente não se conhece, como é que você vai vir morar aqui...
- Eu também pensava assim. Até ontem à noite. Mas você foi me envolvendo com teu papo, Assunção. Puxa, tudo aquilo que você falou, sobre o amor não poder esperar. Sobre a gente seguir as emoções.
Amor? Emoções? Deve ser outro Assunção, não é possível, pensou. Precisava se lembrar, precisava se lembrar. Era difícil se concentrar com a voz do outro lado, agora romântica.
- Eu sei, Assunção, que pode parecer uma atitude precipitada da nossa parte. Mas a noite foi tão especial. Eu, você, a varanda daquele hotel, as estrelas...
- Pera aí! Que papo é esse? Tá me estranhando, rapaz? - Assunção respondeu nervoso.
- Que é isso, Assunção? Tá maluco? Essas coisas a gente não apaga da nossa vida, não.
- Olha, acho que está havendo um grande, um absurdo mal entendido. Primeiro que eu sou hetero...
- Mas eu também sou, Assunção. A minha vida também mudou desde ontem à noite. Você acha está sendo fácil para mim lidar com esse sentimento que surgiu entre nós?
- Sentimento!? Que sentimento!? Ficou maluco? Bebeu?
- Quem bebeu foi você, Assunção. E não foi pouco não. Se não fosse eu para cuidar de você...
- Olha eu só não te parto a cara porque não sei quem você é.
- Ah, não sabe? Então faz o seguinte, Assunção. Dá uma olhada na sua pele, uns quatro dedos abaixo do umbigo.
Que umbigo era esse agora? Ainda devo estar bêbado, pensou. Preciso parar de beber.
- Como assim, umbigo? Pirou?
- Nós dois piramos, Assunção. Aliás, mais você do que eu. Quem teve a idéia de tatuar nossos nomes um no outro hoje de manhã, depois que saímos do hotel? E quem falou que quatro dedos pra baixo do umbigo era um ponto sagrado? Não acredita? Dá uma olhada lá.
Assunção levantou a camisa amarrotada e olhou para o umbigo. Sob a calça, um borrão que parecia ser de tinta. Quase em estado de pânico, abriu o botão da calça. Estava tatuado, em letras bem desenhadas: Valadares.
- Valadares é... você? - Assunção estava quase sem voz.
- Bingo! - a voz estava de novo alegre e romântica. - Olha, não fica assim não. Tenho certeza que vai dar tudo certo pra gente. Eu chego aí, a gente arruma nosso cantinho, faz um lanche...
Valadares continuou falando sem parar, fazendo planos para o futuro. Disse que tinha certeza que, logo, iriam poder até casar na igreja. Enquanto ele falava dos sonhos que haviam traçado na noite anterior, Assunção pensava o que fazer. O nome e a voz do Valadares ali, grudados nele. Precisava ter calma, encontrar uma solução imediata. Como? Como fazer tudo voltar ao normal? A angústia só aumentava, a sensação de estranhamento, a falta da memória, a ressaca que nublava seus pensamentos. Tomou uma decisão.
Desligou o telefone e foi tomar uma cerveja no bar da esquina.
1) O teatro é uma arte exigente. Tudo começa com um mergulho no universo a ser representado, seja no realismo transcendente de Euclides, seja na dimensão mítica de Cacilda, seja na diegese simbólica de Eurípedes;
2) Feito isso, é preciso que o ator incorpore em si esses universos, não só com seu intelecto, mas com suas vísceras. Aqui entra o namoro com o dionisíaco, a abnegação, a supressão da persona;
3) Aí é só todo mundo tirar a roupa e começar a peça.
Quero agradecer a duas pessoas que, sem elas, nada disso seria possível: Adão e Eva.