A mariposa vinha cantando alegremente. Aliás, cantando não, pois mariposa não canta. Que diabo mariposa faz? Bom, que seja zunir. A mariposa vinha, pois, zunindo alegremente, feliz e saltitante. Opa, saltitante não que mariposa não saltita. Mariposa voa. Se bem que mariposa feliz e esvoaçante é um pouco demais. Fiquemos assim: a mariposa vinha zunindo alegremente, feliz e flutuante, quando encontrou com o urubu.
- Bom dia, seu urubu! – acenou a mariposa. Acenou não porque se a mariposa está voando as asas estão em movimento; logo, como poderia o urubu distinguir o aceno do natural movimento de asas? Sendo assim, a mariposa, de novo, zuniu para o urubu, e vamos convencionar que os zunidos distinguem-se um dos outros, senão essa fábula fica impossível.
- Que horas são? – rosnou o urubu (embora quem rosne seja cachorro).
A mariposa olhou no seu relógio e logo entendeu o recado urubusístico.
- Tens toda razão, seu urubu, já passa das 6. Logo devo dizer: Boa tarde, seu urubu.
- Pra mim, a tarde não está boa nem ruim. Tudo como sempre esteve. A senhora é que deve refletir sobre isso.
- Não compreendo o que dizes, urubu.
- Ora, dona mariposa, longe de mim querer dar uma de urubu e tratar de assuntos delicados...
- Pois desembuche, homem, digo, urubu. Nada há de me tirar o contentamento.
- Bom, já que a senhora insiste. A senhora está careca de saber – ou estaria careca de saber, se cabelo tivesse – que as mariposas têm somente um dia de vida. Sendo assim, espanta-me ver a senhora por aí, flutuante e feliz, mesmo diante desta tragédia rondando sua frágil existência.
- Ah, seu urubu – a mariposa deu uma risadinha marota, aliás, uma zumbidinha marota. – Mas por que deveríamos nós mariposas preocuparmo-nos com isso, se nosso viver é um eterno presente? Além do mais, que adianta brigar com o destino?
- Se a senhora assim o dizes...
- O senhor está querendo insinuar algo?
- Pelo contrário, dona mariposa, não me interprete mal. Fico, isso sim, muito admirado com vossa força de espírito.
A mariposa de mais uma zunidinha e bateu as asinhas duas vezes (ela já havia pousado). O urubu continuou:
- Veja, até há pouco a senhora era uma larva muito da nojenta...
- Seu urubu! – interrompeu em exclamação a mariposa.
- Ah, desculpe dona mariposa, é que meu linguajar é assim mesmo.
- Não é pelo seu linguajar. Bem conheço a família dos urubus e sei que expressam-se com espontaneidade. É porque há um erro na sua frase. As mariposas não nascem de larvas, mas sim de crisálidas.
- Oh, desculpe minha ignorância (“por nada”, respondeu a mariposa). Bem, continuando. Até instantes atrás a senhora era uma crisálida muito da nojenta (a mariposa balançou a cabeça), agora está aqui e daqui a pouco não estará mais. Isso se um humano não passar com um pedaço de jornal e não lhe acertar a cabeça, matando-a ou a deixando inválida para o resto da sua existência, que nem é muita. De modos que eu acho que... oh, desculpe-me mais uma vez, dona mariposa, ocorreu-me agora que estou aqui a lhe tomar o pouco tempo que dispõe.
- Não tem problema, não. Por favor, continue – respondeu educadamente a mariposa.
- Pois veja, eu fico conjecturando aqui que a senhora está certíssima. A inocência diante da morte é a única saída. Para que pensar no fim inexorável? Para que se martirizar pelo fato de que tudo isso vai acabar, que não vai haver mais flores, mais árvores, mais céu? Não há sensatez em pensar no que vai haver do outro lado, pois se concluírmos que haverá um grande vazio, um grande buraco escuro, isso certamente afetará nossa existência presente, e começaremos a morrer um pouco a cada dia. No caso da senhora, um pouco a cada minuto.
O urubu falou por mais uns vinte minutos, citando quando necessário algum filósofo existencialista. Depois se despediu com um “divirta-se” e se foi.
A mariposa morreu horas mais tarde. Durante o resto do dia não zuniu, não esvoaçou. Ficou contemplando a tarde caindo, a lua surgindo, sozinha e sentindo um vazio enorme por dentro.
Lição imoral 1: Se encontrar um urubu pelo caminho, não dê ouvidos. Pode ser que ele tenha razão.
Lição imoral 2: Se aconteceu, também bem-feito. Tu não tem nada que sair por aí como uma mariposa feliz e flutuante.
Se você acha um absurdo termos um partido só para a causa operária, outro só para os democratas cristãos, mais um só para os aposentados da nação e ainda um para a reconstrução da ordem nacional, você está enganado. Os partidos nanicos anteviram o futuro da política. A ordem é segmentar. Uma verdadeira reforma política deve estimular a criação de partidos com propósitos bem definidos. Exemplos:
Partido dos Fazedores de Bico
O principal objetivo é regulamentar a profissão de fazedor de bico, com sindicato, carteira assinada, 13o e férias, afinal ninguém é de ferro. Aliás, quem tiver ferro para consertar pode nos procurar.
Partido dos Astronautas Brasileiros
Seu programa de governo é inserir a América Latina na corrida espacial em posição mais digna do que a de encher o tanque de combustível de foguete americano. Por isso, formou um coeso bloco com astronautas da Bolívia e das Guianas. Já conta com 16 membros.
Partido dos Crápulas
Pelo direito de esquecer o aniversário da mulher, de ser flagrado no motel com a secretária, de puxar o tapete do colega de trabalho, de engravidar moças ingênuas e não assumir, de usar bigode estilo Magnum, de ser sustentado por senhoras ricas, de parar de fingir romantismo assim que levar a mulher pra cama, de passar cantada na esposa do amigo, na irmã da esposa e naquela sobrinha que tá começando a nascer os peitinhos.
Partido dos Maníacos Depressivos
O Brasil é grande, o Brasil é forte, o Brasil tem jeito. Vamos juntos mudar o mundo. Está em nossas mãos construir um futuro promissor ou um futuro nebuloso. Porque do jeito que está a coisa vai mal, só tristeza, só desesperança. Êta paizinho de merda.
Partido Dionisíaco Brasileiro
Pretende criar projeto de lei que instaura a suruba semanal no Congresso. Tem ganhado votos com seu slogan que diz que "a classe política tem mais é que se foder".
Partido dos Fracos e Oprimidos
Você que se sente frágil, cansado, desiludido, venha para o nosso partido. Você que sempre foi tratado como um ser abjeto, que se sente pequeno mesmo diante de uma pulga, venha se juntar aos seus iguais. Pense nisso antes de se matar.
Partido do Fundão
Formado por pessoas que sentavam no fundão nos tempos de colégio. Não tem candidato porque só quer avacalhar o dos outros. Nos debates, põem tachinhas nas cadeiras onde os candidatos se sentarão e fazem perguntas do tipo "que time é teu?" e "você tem dado em casa?"
Partido dos Corações Partidos
É, meu amigo, solidão é larva que cobre tudo. A mulher que você ama está em outra? Seu marido se mandou com a recepcionista? Cure essa ressaca e vamos mudar essa situação. Levante desse sofá, tire a Maysa da vitrola, junte-se a nós. Sabemos que é difícil, também já passamos por isso. Mas não queremos falar disso agora que dá uma baita vontade de chorar.
Hermético Pop
Ele escreve livros que ninguém entende, faz filmes que ninguém entende e pinta quadros que ninguém entende. Ainda assim todos acham ele o máximo. Nas pré-estréias, noites de autógrafos e vernissages o público se acotovela para ficar perto dele e fazer um comentário sobre sua obra que os demais não entendem. O artista, que também não entende o comentário, aproveita essas ocasiões para fazer um gracejo intelectual. Todos riem, mesmo que ninguém tenha entendido.
Machista Carinhoso
Quando a esposa empolga-se falando de política para a roda de amigos o marido, sempre gentil, interrompe para dizer orgulhoso: "A Belzinha não é demais? Não falei que ela era inteligente?" Em outras ocasiões, quando a Belzinha está expondo sua indignação sobre algum assunto, o marido mostra preocupação com a esposa querida: "Belzinha, você não devia se preocupar tanto com isso." Às vezes, cansada das interrupções amorosas do marido, a Belzinha se irrita e vai embora. Mas o marido sabe contornar o mal-estar. "A Belzinha tá certa. Ser espontânea é que é o negócio."
Malandro Reprimido
Ele veste seu terno branco, capricha no perfume, confere o sorriso impecável no espelho e prepara-se para a boemia. Quando está já abrindo a porta, a mãe o chama. "Meu filho, não esqueceu nada, não?" Ele se aproxima da mãe e, envergonhado, dá um beijo na velha senhora. A mãe confere seu colarinho e com um pano úmido limpa uma mancha de batom que ficara da noite anterior. "Vai pra sinuca hoje, filhinho?" Ele diz que já falou mil vezes que 5a é dia da gafieira. "Vai, meu filho, vai", estimula a bondosa senhora. "Mas toma cuidado com essa garganta." Ele finalmente sai, não tão empolgado quanto antes. Do portão ainda ouve a mãe gritar: "Vê lá, hein? Antes da 5 da manhã quero você em casa."
Geovani dizia sempre que não era dono da esposa, mas apenas o acionista majoritário. Diante de olhares incrédulos explicava suas contas: a mulher de Geovani, Renata, era um mulherão; querer cem porcento do patrimônio, explicava o marido, era ilusão que ele não comprava; por isso, concluía, melhor uma empresa de capital aberto rentável do que uma fechada que o deixava no prejuízo.
Na mesa de bar, sempre que Geovani expunha suas idéias que tratava por "lúcidas e, quiçá, revolucionárias", alguém o advertia se ele não estava deixando o capital abrir demais. Mas o fato é que por trás daquele despeito todos queriam certa participação acionária na mulher do Geovani e nunca conseguiram.
Um dia, porém, um amigo disparou:
- A Renata recebe também capital estrangeiro?
Geovani não entendeu a insinuação. Mas como queria ter sempre uma resposta para dar, disse "naturalmente". E explicou que no mundo globalizado o capital não tem fronteiras.
À noite, especulou com a esposa – eram raras as vezes que fazia isso – com quem que ela andava saindo. Renata, enquanto punha a camisola sob o olhar admirado de Geovani, primeiro tentou mudar de assunto, mas vendo que a informação interessava de fato ao marido, limitou-se a dizer: "com um espanhol aí."
Geovani sentiu-se mais seguro. Pelo menos estava sabendo das tendências do mercado. Além do que, era um homem esclarecido: que diferença fazia se o sócio falava a língua de Machado ou de Cervantes?
O problema é que à medida que o tempo passava os espanhóis pareciam controlar cada vez mais a holding. Os amigos diziam para Geovani abrir o olho, tomar o controle da situação. Geovani protestava – "onde já se viu impedir a livre iniciativa?" – mas não conseguia esconder a preocupação.
Um dia, no entanto, perdeu o controle da empresa. Renata foi simples e direta como um funcionário de departamento pessoal que comunica uma demissão:
- Estou indo embora para a Espanha. Foi legal entre a gente. Fica chateado não.
Fez as malas e partiu. Mais tarde, sozinho em casa, Geovani viu que ela tinha esquecido a camisola que ele tanto apreciava. Ficou horas alisando o tecido e pensando em economia. Chorou.
Hoje Geovani é um nacionalista convicto. Tem gravados discursos do Brizola, participa de protestos contra a globalização e, à primeira oportunidade, tece longos discursos xenófobos.
Vive tranqüilo com sua noiva, Vivian. A firma é pequena, sem grandes atrativos, mas pelo menos não dá tanto trabalho. E é sua, toda sua. Pelo menos é o que o Geovani acha.
Edu Lobo conta que seu parceiro Chico Buarque reclamou quando ele mudou algumas notas da melodia original que havia entregado para Chico colocar letra. A música era a extraordinária Beatriz. Quando Edu Lobo ficou sabendo o motivo do protesto voltou imediatamente com as notas anteriores. É que Chico tinha feito coincidir a palavra "chão" com a nota mais grave da melodia, e a palavra "céu" com a mais aguda. Coisas de gênio.
- E então, quando é que você vai aceitar meu convite pra um jantar?
- Nunca, e você sabe muito bem porquê.
- Não sei, não. Por quê?
- Porque eu sou noiva.
- Ué, noivas não jantam?
- O que é que sua namorada acha de você ficar convidando outras mulheres para sair?
- Para o seu governo, ela nunca falou nada. Tá certo que nunca ficou sabendo.
- Pois eu teria vergonha de namorar com você.
- Ok, ok, podemos ser apenas bons amantes.
- Quem está feliz num relacionamento jamais vai atrás de amantes.
- Você está feliz no seu?
- Muito.
- Seu noivo te trata bem?
- Como uma rainha.
- Ih, já vi tudo. Quando o sujeito é muito chegado num romance, na cama é uma comédia.
- Aí que você se engana. O Alfredo é um homem completo.
- Quer dizer que o Alfredo é o homem perfeito.
- Claro que não. Perfeição não existe.
- Então me fala um defeito do Alfredo.
- Eu não vou ficar perdendo meu tempo com você.
- Diz. Tem medo de falar do verdadeiro Alfredo?
- Tá bom. Não vejo problema nenhum. O Alfredo tem uma coisa que eu não gosto, sim. Ele não dá muita atenção às coisas que eu falo.
- É mesmo? Me fale mais a respeito.
- Eu sinto que ele me acha bonita, me ama, mas não me admira. Você entende?
- Não.
- Não?
- Não entendo com ele pode não admirar uma mulher admirável como você.
- Lá vem você com as suas gracinhas.
- Falo sério. E se você quer saber, abriria mão do prazer de te levar para cama se tivesse o prazer de só conversar com você.
- Você não está falando sério.
- Deixa eu te provar.
- Como?
- Aceitando meu convite para um jantar.
Ela aceitou, afinal não faria nada que não quisesse. Rogério passou a noite inteira ouvindo Fernanda contar sobre seu dia, suas histórias, suas idéias. Não fez nenhuma insinuação, nenhum galanteio. Terminaram a noite na cama. Fernanda falou muito – antes, durante e depois do ato sexual. Rogério ouviu tudo prazerosamente. Com o prazer da conquista e de ter descoberto o único vácuo que Alfredo deixou em relação à noiva.
Assistindo Fahrenheit 9/11 lembrei de uma lição que um amigo engraçado me deu.
Foi no tempo em que eu votava, e no Lula. O nosso atual presidente concorria com o Fernando Henrique para ver quem iria substituir o Itamar. Escrevi um texto engajado, com boas frases, números e uma pitada de emotividade para mostrar porque o Lula era melhor que o FH, e coloquei o texto sob a porta de todos os apartamentos do prédio onde morava.
Mais tarde encontrei com o meu amigo e ele, com o texto na mão, me perguntou:
- Você que escreveu isso?
- Fui - respondi, orgulhoso.
- Sabe que esse texto me fez mudar meu voto?
- É mesmo? - agora o orgulho atingia o ápice.
- É. Agora vou votar no Fernando Henrique.
Pois é, Fahrenheit é tão grosseiro na sua manipulação, tão picareta na sua costura conspiratória, que acabei saindo do cinema nutrindo simpatia pelo Bush.
Já estou no segundo mês de blog e ainda não me apresentei. Então, lá vai.
Sou um sujeito ímpar. Nasci num dia 17, ímpar, de um mês ímpar (5), em um ano que só tem número ímpar, 1973, no hospital 9 de julho (9-7, ímpar, ímpar), às 23 horas e 25 minutos. Portanto, se for verdade aquela história de que Zeus dividiu os seres em dois para que cada metade passasse a vida a procurar a outra metade que lhe completa, eu devo ser uma peça sobrando.
Mas felizmente não acredito em Zeus.