setembro 22, 2004

No domingo estive em um restaurante onde em uma das mesas estava o Raí. Quando veio a conta, pensei que seria melhor ter ido a um lugar onde estivesse o Biro-Biro.

Posted by Tiezzi at 12:27 PM

setembro 20, 2004

compreensão tem limite

Um encontro marcado pela internet. Para uns, o grande dia. Para Licurgo, a catástrofe anunciada.
O motivo era simples. Licurgo era feio. Aliás, não somente isso. Era de uma feiúra inominável, quase agressiva. Nem sua mãe o achava bonito. Na maternidade as enfermeiras recusavam-se a carregá-lo.
Teve só uma namoradinha. A família dela incentivou, mas proibiu o relacionamento depois que o conheceu. Disseram que a filha era muito nova para namorar. Ela tinha 25 anos.
Por isso, seus contatos com o sexo oposto eram pela internet. Pela rede, protegido pelo anonimato, arriscava seus galanteios. Nunca mandava fotos. Mas a estratégia logo falhava. Nos dois encontros que marcou, uma das moças simulou um ataque de asma e a outra ameaçou processá-lo.
Agora, com Priscila, agiu diferente. Depois de alguns meses de bate-papo, ela pediu uma foto e ele mandou, esperando receber um xingamento de volta. Licurgo estava disposto a ressarcir o tempo que ela perdeu.

Mas ela não disse nada. Pelo contrário: mandou de volta uma foto dela. Priscila era deslumbrante. Desde aquele dia Licurgo passou a ter sonhos com ela. O problema é que quando ele entrava em cena os sonhos viravam pesadelos e ele acordava assustado.
Priscila continuou os encontros pela internet normalmente, e Licurgo considerou que se tratava de moça educada, que estava dando uma pausa depois da foto para que ele não se sentisse tão mal.
Um dia, porém, ela propôs um encontro. Ele devolveu com um “tem certeza?” que nas entrelinhas queria dizer “viste bem a estampa do garoto?”
Aceitou o encontro para o domingo, e viveu uma semana de paranóias. Talvez ela achasse que a foto dele era uma brincadeira. Ou talvez ela tivesse mandado uma foto falsa: era na verdade uma mulher horrenda, cheia de espinhas, cabelo ensebado, óculos fundo de garrafa, gorda, pêlos pelo corpo, nariz grande. Enfim, um pouco mais bonita que ele.
Os poucos amigos de Licurgo o estimulavam:
- Vai lá. Decepciona logo de uma vez assim você tira isso da cabeça.
Licurgo foi. Numa sorveteria, viu de longe Priscila numa das mesas. Ela era exatamente igual à foto. Melhor, porque se mexia. Pensou em ir embora. Não podia conspurcar aquela beleza com sua feiúra.
Tarde demais. Priscila o reconheceu. E não desmaiou.
Ele se sentou com ela, quase pedindo desculpas. Priscila começou a conversar empolgada. Além de tudo, era simpática. Licurgo começou a ficar desconfiado. Talvez ela fosse ativista de alguma seita pela erradicação da feiúra
- E você? Me fala de você – Priscila interrompeu as divagações de Licurgo.
Ele tentou balbuciar algumas palavras, mas era tímido. E chato. Era agora que ela iria pedir a conta, pensou. Mas não. Ela sorria com seus dentes brancos prestando atenção nas bobagens que ele falava.
Em determinado momento Priscila o convidou para irem a um lugar mais tranqüilo. Bingo. Tratava-se de uma nova modalidade de prostituição, que coopta clientes horrorosos para colocá-los diante da única oportunidade na vida de terem uma mulher estonteante, o que os faz pagar o dinheiro que for. E funciona, pois àquela altura Licurgo estava disposto a assinar um cheque de qualquer quantia. Se tivesse dinheiro.
- É que... eu estou meio desprevenido.
- Não tem problema, o sorvete é por minha conta – Priscila logo entendeu o recado.
- Não, não é isso não. Pro sorvete até que eu tenho.
Priscila olhou-o com sensualidade.
- O motel eu pago também.
- Motel!? – um frio subiu pela espinha de Licurgo, eriçando os pêlos do seu corpo. Ficou parecendo um gorila no cio. – O problema é que eu não tenho para pagar o... serviço.
Priscila ficou em total silêncio. Depois explodiu em gargalhada. Disse que não era prostituta, e que ele a divertia. Tinha gostado dele, tanto pela internet quanto pessoalmente. E ria, enquanto pegava na sua mão.
No caminho do motel, Licurgo elaborou mais uma hipótese: tratava-se de uma obra de caridade, um projeto social. Afinal, hoje em dia tem ONG pra tudo.
Priscila parecia ler seus pensamentos. Disse que não ligava para beleza, isso era o que menos importava. Sabia ver outros aspectos das pessoas, mais profundos. E tinha se encantado com ele.
Entraram no quarto. Licurgo sempre desconfiado: uma pegadinha de tevê, uma brincadeira do pessoal do escritório, um travesti.
Priscila tirou a roupa e era uma mulher perfeita. Começou a despir Licurgo. Ele se desculpou pela barriga, sabe como é, andava sem tempo de fazer exercício. Ela nem ligou. Começou a beijá-lo e Licurgo, entre a excitação e o desvario, murmurava “eu não mereço, eu não mereço”.
Tanto achou que não merecia que, na hora agá, falhou. Virou para o lado e pensou se talvez tivesse um revólver na gaveta do criado-mudo. Era um pulha, um nada, uma vergonha para a família e para a sociedade. Merecia a pena capital.
Priscila se aproximou por sobre seu ombro, com seu hálito quente e fresco, e disse tudo o que ele não queria ouvir:
- Não fica assim. Isso acontece.
A camareira entrou correndo no quarto com a chave reserva. A tempo de ver a imagem daquele homem horrendo sobre a cama, nu, empunhando o abajur como uma espada em direção à moça bonita e gritando histericamente:
- Compreensão tem limite! Compreensão tem limite!

Posted by Tiezzi at 5:19 PM

setembro 15, 2004

Mais uma do mestre:

"Louvado seja Deus que não sou bom"
Fernando Pessoa

Posted by Tiezzi at 1:01 PM

setembro 6, 2004

mordomo Bush

Título de matéria do Estadão sobre o filme A Vila: Sexto Sentido contra George Bush. O filme é sobre o medo. E não adianta dizer que não foi Bush quem inventou o medo e nem mesmo o diretor afirmar que o argumento é anterior à eleição dele. Tudo agora é culpa do Bush.

- Olha, eu só queria te dizer...
- ... que isso nunca te aconteceu antes.
- Pois é. (pausa). Também, sei lá, essa situação que a gente vive. Enquanto o Bush estiver aí...
- ?
- Você não entende? Como você acha que “ele” reage com a imagem das torres caindo? Até as expressões populares estão comprometidas, entende? Veja só: “trocar o óleo”. Óleo remete a petróleo, petróleo ao Iraque, o Iraque, de novo, ao Bush. E eu lá, me movimentando enquanto a gente transa e é como se o som repetitivo fosse: Bush, Bush, Bush. Até o som desamina, joga pra baixo, buuuuussssshhhhhh.
- Amor, vem cá, relaxa. Por que você não tenta pensar em outra coisa?
- Pensar em quê, com o Bush dominando tudo?
- Que tal... no John Kerry?
- No John Kerry?
- É. Ele tem aquela cara comprida...
- Será que vai funcionar?
- Vem experimentar, amor. Isso, vem. John Kerry, amor. Isso, assim... John Kerry, John Kerry... ai, que delícia. Kerry mais, kerry mais...

Posted by Tiezzi at 1:35 PM

setembro 4, 2004

O filme Garotas do ABC inventou um novo tipo de defeito narrativo, o Japonês Ex Machina.

Posted by Tiezzi at 2:26 PM