O cara que matou John Lennon ainda está preso. Entrou com pedido de liberdade várias vezes, sempre negado. Fosse no Brasil e já teria sido solto as vezes necessárias para matar também o George, o Paul e o Ringo.
A ESPOSA
Entediada com o casamento, arrumou um amante. Entediada com o amante, arrumou um psicanalista. Entediada com o psicanalista, arrumou um pastor evangélico. Entediada com o pastor, arrumou um poodlezinho. Entediada com o poodlezinho, arrumou um guru. O guru mandou ela abandonar tudo: o marido, o amante, o psicanalista, o pastor e o poodlezinho. Como estava entediada, preferiu abandonar o guru.
O MARIDO
Acorda pontualmente às 6 da manhã, observa suas olheiras no espelho, vai para a cozinha, aperta a bochecha da esposa, reclama das roupas da filha enquanto o poodle cheira o bico do seu sapato. Toma o café num gole, vai para o trabalho, dá bom-dia para a secretária, toma bronca do chefe, faz três relatórios, volta para casa, guarda o paletó no armário, vai dormir à meia-noite.
Um dia, resolveu mudar tudo.
Acordou ao meio-dia, observou suas espelhas no olheiro, foi para o trabalho, apertou os peitos da secretária e não tomou bronca do chefe porque deu-lhe um tiro no peito. Voltou para casa, o bico do sapato chutou o poodle, virou o uísque num gole, tirou o paletó e saiu do armário. Foi para a rua com as roupas da filha e voltou pontualmente às 6 da manhã. Desde então, já passou por três sanatórios.
A FILHA
Como toda adolescente, tem entre 13 e 17 anos. Fez uma tatuagem na perna para ser diferente e apanhou do pai para aprender a ser igual a todo mundo. Tem medo de perder a virgindade e nunca mais encontrá-la. Por causa dos hormônios da idade, seu humor varia, entre o péssimo e o insuportável. Gosta de um menino que a ignora e odeia um que gosta dela. Por causa do efeito sanfona, já foi magra como uma flauta e gorda como uma tuba, o que não deixa de ser uma formação original. Pretende ser aeromoça como a avó, que ficou 50 anos na profissão e tornou-se aerovelha.
O AMANTE
Sabe que toda mulher tem um ponto fraco, geralmente o marido. Ou a carne, que é fraca. Com um bom galanteio é capaz de conquistar até padre, principalmente se estiver vestido de menininho. Usa todos os recursos para seduzir uma mulher, especialmente os recursos financeiros. A mulher simples, enche de flores. A mulher cheia de si, enche de sopapos. Considera-se melhor que galã de cinema, pois nas cenas de sexo não têm cortes. Defende que entre quatro paredes vale tudo, principalmente a mulher ficar de quatro e subir pelas paredes.
O POODLE
Ë pequeno, de pêlos brancos e encaracolados, por isso os cachorros da vizinhança costumam chamá-lo de ovelha subdesenvolvida. Certa vez, apaixonou-se por uma pastora alemã mas o romance não foi pra frente porque ele não entendia nada do que ela latia. Por falar nisso, só late para pessoas estranhas, especialmente os seus donos, que considera uma gentinha bem esquisita.
A formiga vinha caminhando, com uma folha às costas, pela longa estrada de terra em direção ao formigueiro. Contornava, bravia, cada obstáculo, como plantinhas e pedregulhos. Vencia o vento e não se importava com o sol a pino. Estava totalmente envolta em seu objetivo, seguindo corajosamente...
- Anda logo, rapá!
(Silêncio).
(De onde teria vindo essa intervenção?)
- Que é que te deu? Conta esse troço logo. Fica aí embaçando e eu com esse peso nas costas?
Era a formiga. E, pelo visto, está falando comigo.
- Dona formiga, confesso que não esperava pela sua voz ativa na minha humilde fábula, mas é que...
- Meu amigo, vamos deixar as churumelas para depois. Por enquanto eu queria que você narrasse de maneira mais breve que puder a minha chegada ao formigueiro pra eu largar esse diabo desse peso logo. Se você for contar cada pedrinha que eu desviar, o sol, o vento, só vai dificultar minha vida. Além do que, fica parecendo filme iraniano.
Não pude deixar de notar que o humor da minha personagem não estava dos melhores. Arrisquei um gracejo para descontrair o ambiente:
- Mas, dona formiga, o tal peso que a senhora fala não passa de um minúscula folhinha.
- Que é cinqüenta vezes mais pesada que eu. Coloca a tua mãe nas costas, que de tão gorda a proporção deve ser a mesma, e depois a gente conversa.
- Escuta aqui, ô formiga. Estou te tratando com respeito. Recolha-se à sua insignificância. Você não passa de um inseto. E de ficção, ainda por cima.
- Ficção da pior qualidade, diga-se.
Aquela observação da desgraçada com um ar blasé de crítico literário me tirou do sério. Exigia uma resposta categórica.
- Me permite um conselho? Fica na tua que a minha mão está formigando pra te esmagar.
Achei que ia provocar medo. Mas ela riu.
- Olha aí, estou falando. Esse tipo de trocadilho é o melhor que você pode fazer?
Depois, séria, deu-me um golpe que eu não esperava.
- Além disso, como você mesmo disse, eu sou de ficção. Impossível você me esmagar.
A maldita tinha razão. Agora eu sentia o veneno cruel dos bichos de fábulas: eles vivem te dando lição de moral. Obrigam-nos a admitir que sabemos menos que um invertebrado. Ela me fitava com ar de superioridade. Humilhado, eu permanecia com os olhos baixos, fitando o teclado.
O teclado!
- De fato, dona formiga, eu não posso esmagá-la. Mas posso fazer coisa pior.
-
- Desculpe, formiga, não entendi o que você disse.
- Eu não disse nada. Você não deixou.
- A senhorita podia falar um pouco mais alto. Assim não escuto.
Ela acusou o golpe. A empáfia transformava-se em irritação.
- Issto é un truqwxue sujjo. Você naio pplode adyultteorar assssim ol qomnh xclvind.
- Calma, dona formiga. Não fique nervosa. Não consigo entender o que a senhora fala. Calma. Respire...
Fiquei assim, fitando a minha personagem com tranqüilidade e ironia, enquanto ela permanecia congelada, apesar do sol a pino, com um enorme peso às costas. Senti-me aliviado. Poderia escrever um grande sertão veredas inteiro fazendo-a zanzar pra lá e pra cá sem nunca livrar-se do fardo. Ou então fazer literatura intimista, colocando a formiga a viajar para dentro de si mesma, refletindo sobre aquele instante único de sua existência.
- O problema é que ia ficar uma porcaria – pensei alto.
Ou foi a voz da formiga?
Lição imoral 1 – A melhor maneira de tirar um peso das costas é passando-o para alguém.
Lição imoral 2 – Mostre que é maior que seus personagens e você ganhará deles. O problema é que perderá os leitores.
Apoio da família é fundamental.
Que o diga a atriz pornô Jenna Jameson, que em sua auto-biografia conta que o irmão a iniciou nas drogas e o pai a colocou como principal atração do clube de strip-tease que gerenciava.
Hoje ela é só gratidão.
Hume e Rousseau chegaram a dividir apartamento. Deu briga, e feia. O que era previsível, visto que a única coisa que tinham em comum era a peruca branca com cachinhos.
Hume era um gordinho otimista e alegre. Amigo de políticos e artistas, freqüentava a intelectualidade e pegava uma mulherada. Mesmo quando morrendo declarou que estava na melhor fase da vida. Mas quando escrevia era um cético, um descrente na capacidade humana de conhecer a realidade.
Rousseau era tímido, taciturno, melancólico, misantropo. Não tinha amigos, era casado com uma grosseirona. No entanto, era o filósofo que defendia a bondade natural do homem, a pureza original.
São nebulosos os motivos do rompimento drástico. Alguns comentaristas dizem que foi a peruca. Outros defendem que chegaram a pensar em trocar de filosofia. Há relatos de que depois de cada arranca-rabo Rousseau pedia desculpas dizendo que não era daquele jeito, a sociedade que o tinha corrompido. Hume recusava, argumentando que seus sentidos tinham captado muito bem o canalha que ele era.
O fato é que o sujeito Hume só se dava bem com o Rousseau dos textos, mas odiava o autor. E vice-versa. O Rousseau do papel se daria bem com o Hume pessoa, assim como o Hume-papel com o Rousseau-pessoa.
Aliás, indo mais fundo, o próprio Hume-gente devia ter lá seus desentendimentos com o Hume-escrito. Rousseau também vivia essa incompatibilidade de gênios com ele mesmo.
Enfim, ali ninguém se entendia com ninguém.
Acabo de ver no jornal que em certas cidades alguns candidatos a vereador não tiveram nenhum voto. Nem o deles mesmos.
Fico imaginando o exame de consciência desses candidatos na solidão da urna: "Como vou me encarar no espelho depois de votar num canalha como eu?" "Para votar, é preciso conhecer bem os candidatos. E se tem alguém que eu conheço a fundo sou eu mesmo. E posso garantir: não presta." "Eu posso até me eleger, mas não com o meu voto. Eu é que não vou ser responsável por eleger um ladrão."
Enfim, acabaram não votando neles mesmos e puderam se encarar no espelho com a consciência tranqüila. Constrangedor mesmo foi o jantar com mulher e filhos, quando várias vezes o candidato pensou em quebrar o pesado silêncio: "Mas nem vocês!"
Costumo votar nulo há algum tempo. Mas este ano, cada vez que ficava preso em um monstruoso congestionamento de São Paulo, minha intenção de voto para a oposição aumentava. Além disso, achei que era hora de pôr um freio nas pretensões petistas.
Mas confesso: quando, na urna eletrônica, apareceu a careca do Serra e aquele sorriso de Nosferatu, pensei em voltar atrás.
Um dos temas da teoria marxista que mais me causa estranheza é a mais valia.
Como se sabe, a mais valia seria a quantidade de horas de trabalho do empregado que o patrão embolsa para ele. Funcionaria assim: o valor do produto é determinado, para Marx, pela quantidade de horas de trabalho em todas as etapas envolvidas para fazê-lo. O capitalista vende a mercadoria pelo tal valor (chamado valor-trabalho, medido objetivamente) e paga aos que a fizeram menos do que esse valor. É daí que nasceria o lucro. E a exploração. E a luta de classes. Daí a mais valia ser a pedra de toque do edifício marxista.
Há muito tempo, sempre que alguém me dá essa explicação, eu pergunto:
- E a Mont Blanc?
- Como assim, a Mont Blanc? – é a resposta que sempre ouço.
Explico: a Mont Blanc custa pelo menos cem, às vezes mais que mil vezes o preço da Bic. Pela teoria do valor-trabalho teria que ter sido empregado cem, mil vezes mais horas de trabalho para produzi-la. E aí o capitalista pagaria menos do que esse valor a todo mundo envolvido e ficaria com o lucro, exorbitante no caso.
Só que isso não procede. A Mont Blanc é apenas um pedaço de plástico com um ponta, como a Bic. Ao meu teste, já responderam que a tecnologia da Mont Blanc é maior, ou o material mais difícil de ser encontrado.
Não é verdade, e mesmo que fosse haja tecnologia e dificuldade para estabelecer a astronômica diferença de preço entre canetas.
O fato é que o valor é quase inteiramente subjetivo. É a cabeça, o coração e o inconsciente do consumidor que determinam valor. No caso, o valor é a inscrição Mont Blanc (desde que autêntica) em um pedaço de plástico. Logo, o lucro não nasce pela exploração do trabalho, mas pela avaliação subjetiva das pessoas.
Ainda aguardo resposta satisfatória para o teste da Mont Blanc. Se não existir, o marxismo acaba numa canetada.