Primeira consideração: eu não sei o que é extemporânea. Sim, eu sei, eu poderia ir ao dicionário e resolver meu problema, mas, nesse caso, como eu abriria este tratado? A pergunta nos leva diretamente à segunda consideração: mais vale uma ignorância criadora do que uma certeza paralisante.
A única certeza que tenho, se não me engano, é que trata-se de um título de livro de Nietzsche, o filósofo que conseguiu a proeza de sacudir a filosofia e de ter cinco consoantes seguidas no nome. E que outro filósofo, Aldir Blanc, conseguiu a proeza de rimar com pizza de aliche.
Mas divago, e diz o sábio: “Devagar com o divagar”, o que pode ser considerada a terceira consideração, visto que o sábio sou eu mesmo. Voltando, portanto, à vaca fria – que jamais entendi o porquê de ser fria, e só remotamente o porquê de ser vaca, mas isso é assunto para outro estudo – logo salta aos olhos na palavra o prefixo ex. E vejam, senhores, que ex é tão prefixo quanto o 11 é para São Paulo, o 21 para o Rio e o “faz um 21”, que não é prefixo mas é um belo slogan. Você já se perguntou, sendo assim, qual é o sufixo do seu telefone?
Ex sugere algo que já foi, passada, e carrega normalmente um ar de coisa ruim: ex-esposa, ex-presidente, ex-terco, com a honrosa ex-ceção para a ex-sogra. Ex-temporâneo é, portanto, o temporâneo, provavelmente nocivo, que não volta mais. Outrossim, mal saímos do lugar, pois temporâneo permanece como enigma.
Evidente que a luz natural nos leva a crer que a palavra refere-se a tempo. Entretanto, e há sempre um entretanto em filosofia, não nos devemos deixar arrastar pelo mais premente. Se temporâneo significa tempo, então por que não se utilizou logo esta ao invés daquela, hein, hein? A palavra seria então Extempo, e indicaria o tempo que já foi, ou seja, sinônimo de passado, o que tiraria toda a graça. Ficaríamos aqui tecendo considerações sobre o passado, como a visita que fiz quando criança ao sítio do meu avô, o que não teria alcance literário nenhum, ainda que a visita ao sítio do meu avô tenha sido extremamente agradável.
Um caminho que costuma dar bons resultados – e se não os dá ao menos impressiona – é o da etimologia. “A ordem das palavras é a ordem do mundo”, já dizia o confuso Confúncio diante de tantos termos para significar a mesma coisa e outros que não significavam absolutamente nada, e vamos considerar esta a quarta consideração.
Cumpre então que procuremos em nosso enigma a raiz da palavra, o que está entre o prefixo e o sufixo. E o que está entre o prefixo e o sufixo? Ora, o fixo propriamente dito. “Dê-me um ponto fixo e eu faço mover o universo”, disse Archimedes (quinta consideração). Descontemos o exagero, visto que trata-se do mesmo Archimedes que saiu gritando eureca pelado pela ruas, mas o ponto fixo tem a vantagem de não ser móvel. Ou seja, mantém nosso foco, o que é o objetivo principal destas considerações.
Ora, outrossim, portanto, entre o prefixo ex e o sufixo porâneas temos... o tem. O velho verbo ter, ele mesmo, princípio de tanta discórdia, da separação do mundo entre os que têm e os que não têm, sedução aos insensatos que em todas as épocas adotaram o ter e preteriram o ser. Sim, senhores, eis aqui a raiz do problema, tão exata quanto a raiz quadrada de nove é três, a raiz de mandioca é saborosa e a raiz cúbica de 27 é... é... bom, deixa pra lá.
Não me estenderei mais. Aos que tem olhos para enxergar, ouvidos para ouvir, tato para tatear, e paladar para saborear a pizza de aliche, a verdade se revela. Considerações extemporâneas trata de um passado perigoso, onde o ter se sobrepôs ao ser, deixado para trás por força desta reflexão no qual dialogamos com outros grandes pensadores.
E aos céticos que liam essas inspiradas palavras considerando que davam voltas sem chegar a qualquer lugar, possivelmente tecendo pensamentos desabonadores ao seu autor, respondo com a sexta e última consideração: Enrolador é a p...
- Precisamos regularizar a situação.
Era assim que ele, Otávio Morais Gouvêa, assim mesmo, com circunflexo como sua personalidade, burocrata de uma empresa de logística que adquiriu razoável reputação tornando grandes os pequenos problemas, argumentava com sua amante quando se impacientava com a precariedade dos laços afetivos que os uniam.
- Calma, Tavinho. Precipitação só vai complicar as coisas.
Era assim que ela, Ludmila D’Alessio Figueira, mulher de 30 e muitos que, se não conservava o viço da juventude que fazia os rapazes dirigirem-lhe comentários lisojeiros, ainda mantinha certo encanto, apesar de certa flacidez aqui e ali e das marcas de expressão que pareciam não estar ali no dia anterior, respondia aos apelos do amante para que não tomassem nenhuma atitude fora de hora.
Na verdade, Otávio tentava descobrir qual seria a hora propícia há quase sete anos, tempo em que eles mantêm relações às escondidas. Ludmila sempre encontrava uma desculpa inescapável para não regularizar a situação: a sogra que veio morar com ela e o marido, os problemas com drogas do primogênito, a situação do país, a falência de um rim do cunhado, a seita em que o primogênito se meteu, a sogra que se foi. E assim o tempo foi passando.
O fato é que Ludmila há muito perdeu também com Tavinho o frescor e o ímpeto do início da relação. O proibido virou rotineiro. O amante convertera-se em uma espécie de segundo marido. O tédio que a tudo corrói os transformara em um casal comum. Só não podiam passear de mãos dadas no parque, dividir o saco de pipocas no cinema, ir a eventos sociais, mas isso um casal comum também não faz. Se não fosse pelo veneno, elocubrava Ludimila, Romeu e Julieta estariam bocejando juntos em frente à tevê, e pensando que deveriam ter ouvido os conselhos dos pais.
Tavinho, por sua vez, dava-se conta desse estado degradante da relação, o que muito o incomodava. Sentia-se como se fosse o marido e, em sua imaginação, o outro é que era o amante. A voluptuosidade, o ímpeto, o mistério estariam agora ao lado do rival, enquanto a ele restavam a televisão e os bocejos de Ludmila. Decidiu dar o ultimato:
- Precipitação, Ludmila! Eu quero regularizar a situação agora!
Ludmila tentou o plano B. Aproximou-se carinhosa:
- Você está ansioso, eu entendo. Olha, ainda essa semana eu vou ter uma conversa com o Figueira.
- Essa semana, não. Hoje! E eu que vou ter uma conversa com o Figueira.
Otávio pegou o telefone e discou com decisão. Ludmila, paralisada, não conseguiu pensar num plano C.
- Alô. Por favor, eu gostaria de falar com o senhor Régis Figueira.
Pausa. A primeira barreira havia sido ultrapassada.
- Diga que é da... – Otávio pensou um instante: o jeito seria recorrer à empresa para furar o bloqueio da secretária. – Da Lógica Logística, assunto de interesse dele.
Novo lento e profundo silêncio. Ludmila olhava para as paredes do quarto em que se encontravam. Seu segundo lar. Nada seria como antes.
- Não pode atender agora?
Tavinho sentiu seu ímpeto inicial se esvair, como uma válvula que se abre e deixa escapar a pressão. Mas não se rendeu:
- Diga que eu volto a ligar.
E ligou mesmo, uma hora depois, sob o olhar preocupado de Ludmila. A secretária do Dr. Figueira informou que ele encontrava-se em reunião. Uma hora depois, a reunião não havia acabado. Tavinho ligou mais duas vezes. “Reunião da diretoria é fogo”, confidenciou a secretária, já íntima do Tavinho. Sugeriu que ele ligasse no final da tarde. Ele ligou. A secretária, um tanto constrangida, informou que o senhor Figueira saiu da sala irritado e passou por ela voando, indo embora da empresa.
- Meu Deus, preciso chegar em casa antes do meu marido! – exaltou-se Ludmila ao saber da informação.
Vestiu seus sapatos, arrumou o vestido, conferiu-se no espelho. Deu um beijo discreto em Tavinho e saiu, não sem antes dizer que tudo iria se resolver. Otávio observou a tudo desolado, com a nítida sensação de que Ludmila iria se encontrar com o amante.