agosto 17, 2005

Do Millôr:
"O ser humano é capitalista na essência."

Posted by Tiezzi at 11:15 AM

agosto 16, 2005

auto-ajuda com o Dr. Apolônio

Não sei o que fazer. Eu sou uma pessoa que se cobra muito.
Simples. Não pague.

Às vezes eu me sinto apenas um inocente útil.
Poderia ser pior. Você poderia ser apenas um culpado inútil.

Eu tenho excesso de megalomania. O que o senhor recomenda?
Duas doses de complexo de inferioridade pela manhã e duas à noite.

Sinto que estou prestes a me suicidar. Que devo fazer?
Por garantia, deixe a consulta paga.

Tenho síndrome de tudo. Aposto que ninguém tem mais síndromes do que eu. Qual a sua sugestão?
Inscreva-se no Guiness Book.

Meu marido tem chegado tarde todos os dias. Ele diz que é reunião de trabalho e eu acredito. Será que estou me enganando?
Não. Ele é que está te enganando.

Não sei se tenho síndrome do pânico ou psicose maníaco-depressiva. Qual o seu diagnóstico?
Dupla personalidade.

Não sei o que está acontecendo. Às vezes me sinto feliz, às vezes me sinto triste...
Eu também.

Dr. Apolônio, vou ser sincero: eu acho que o senhor se aproveita da minha ingenuidade.
Não é verdade. E para te provar vou deixar essa consulta pelo dobro do preço.

Os homens sempre me olharam como um corpo bonito, e eu queria ser apreciada pela minha inteligência.
E dá para olhar para a inteligência com um corpão desse?

Às vezes eu tenho a leve impressão de que as pessoas não prestam atenção no que eu falo.
Preste mais atenção no que elas falam. Você vai ter certeza de que não prestam mesmo.

Quem sou eu? De onde vim? Qual o sentido da vida? O senhor pode me ajudar?
Para a primeira pergunta, não sei a resposta. Para a segunda, também não. Para a terceira, muito menos. A quarta eu sei: Não.

Dr. Apolônio, quando vou ter alta?
Quando minhas finanças saírem da baixa.

Tenho problemas de auto-estima. Resolvi entrar para a Igreja. Será que vai resolver?
Não. Você vai aprender que deve amar o próximo como a si mesmo. E você, que se odeia, como é que fica?

Eu só consigo levantar da cama se repetir cem vezes “hoje vai ser um grande dia”, e mesmo assim o dia é uma porcaria. Que faço?
Você deve dizer cem vezes “hoje o dia vai ser medonho, desprezível, um lixo, o pior da minha vida”. Aí no final do dia vai ficar feliz por ele ter sido só uma porcaria.

Se é auto-ajuda por que eu tenho que pagar?
Paga que eu respondo.

Posted by Tiezzi at 11:05 AM

agosto 14, 2005

pais & filhos


O Outro

Briga de mãe e filho. Ânimos exaltados. Em sua velha poltrona, o idoso pai parecia estar distante, embora de vez em quando murmurasse:
- Eu falei que a gente tinha que ter pegado o outro.
O filho, cabeça quente, não prestava atenção às caduquices do velho. Gritava com a mãe. E o pai insistindo:
- O outro era bem melhor. A gente escolheu errado.
A discussão se prolongou. O filho nervoso, a mãe chorando, o pai falando do outro.
Em dado momento o filho, quase fora de si, perguntou aos berros que diabo era aquilo que o pai estava repetindo. A gritaria deu lugar a um enigmático silêncio.
O pai quis falar, a mãe não deixou, o filho exigiu. Resolveram contar tudo. O filho era adotado.
O rapaz perdeu o rumo. O pai, aproveitando que finalmente o nó havia sido desfeito, desabafou. Disse que todos esses anos não perdoava a esposa por ela não ter lhe escutado no orfanato, 25 anos antes. Havia um garoto sentado no chão, perto da janela, um tanto afastado dos demais. Tinha cabelo encaracolado e brincava concentrado com seu peão. O pai queria ter ficado com aquele, a mãe é que decidiu pelo escolhido.
- Tá vendo? O outro não ia estar te dando trabalho – sentenciou o velho.
O filho saiu de casa atônito. Pai e mãe se olharam. Com a convivência, aprenderam a dialogar pelo olhar. A mãe entendeu o que o pai estava querendo dizer. E com o olhar respondeu: Não, não dá mais pra trocar.

***

Que é que há, velhinho?

Estimulado pela mãe, o filhinho correu pela sala e se atirou no colo do pai:
- Pai, o que você quer ganhar de Dia dos Pais?
O pai fez suspense, olhou para cima, como se estivesse para tomar uma importante decisão de negócios.
- Uma fantasia do Pernalonga.
A mãe foi a primeira a ri, o filho demorou um pouco mais para entender a brincadeira. Mas o pai manteve a seriedade.
- Não é piada. Eu quero uma fantasia do Pernalonga.
- Por que, pai? – o filho tirou a pergunta da boca da mãe.
O pai, bom advogado, tinha sempre um argumento certeiro.
- Eu lhe pergunto por que quando você escolhe seus presentes?
Nos dias anteriores ao Dia dos Pais, mãe e filho viram que era pra valer. Rodaram a cidade atrás de uma fantasia do Pernalonga do tamanho do pai. Só achavam Pernalonga de perna curta. Acharam uma do Frajola, mas o pai, irritado, reclamou que “já disse” que tinha que ser do Pernalonga. As visitas às lojas só não foram completamente frustradas porque o filho acabou ganhando um escudo do Capitão América que há muito ansiava.
Enfim, numa loja de fantasias escondida em uma galeria, acharam um Pernalonga tamanho G. O vendedor, de pouco tato, disse que aquela era uma das preferidas por quem queria ficar bêbado nas festas da firma. Será que era isso que o pai pretendia?
Não era. No Dia dos Pais, abriu seu presente com os olhinhos brilhando. Vestiu a fantasia na sala mesmo. Tirando o rabo meio curto, era perfeita. A mãe constrangeu-se, o filho entrou na onda e brincou com o pai. O pai ainda pegou uma cenoura na geladeira e ficou mastigando com os dentes do canto. No meio da tarde não estavam mais achando graça. O pai guardou a fantasia no armário e nunca mais usou.

***

Vida de artista

Gostavam de assistir tevê juntos, lado a lado no sofá. O garoto pequeno riu quando o pai, ao ver um artista se apresentando, vaticinou:
- Artista é tudo veado!
O tempo passou, o garoto cresceu, o pai ficou mais velho. O sofá continuava o mesmo. E o hábito também: os dois ali, naquela fraternidade televisiva. A máxima de que “artista é tudo veado” tinha perdido a graça, mas o pai continuava a repeti-la. Adolescente, o filho começou a se incomodar. Descobriu o motivo: queria ser artista. Mas a sentença paterna o oprimia: Será que ele era veado?
Jovem, achou que era chegada a hora de reagir, se rebelar. Muitos artistas desfilaram pela tela – alguns bem veados, é verdade – e o filho não criava coragem para contestar a sabedoria paterna.
Um dia, apoiado pelos amigos do grupo de teatro, ele decidiu: de hoje não passa. Mais tarde, na tevê um cantor de camisa justa mexia os quadris. O pai balançava a cabeça. O filho sabia que a frase estava vindo. Respirou fundo. Tinha que ser convicto, olhos nos olhos. Sem conflitos, apenas como dois homens que trocam opiniões.
O cantor terminou a apresentação e agradeceu o público. Daquela vez o pai parecia ainda mais inconformado:
- Artista é tudo veado!
- Pára, papai! Que coisa!
A voz do filho saiu esganiçada, tensa, mais aguda do que o normal. Talvez por estar muito tempo represada, mas o fato é que pareceu algo muito semelhante a um chilique.
O pai não respondeu. Depois daquele dia, viram tevê lado a lado no sofá com bem menos freqüência. E nas vezes em que o faziam, o pai nunca mais falou que artista é tudo veado.
Mas que pensou, pensou.

Posted by Tiezzi at 10:47 AM

agosto 12, 2005

Lula se diz traído. Conviveu com um pessoal barra pesada um tempão e só agora descobriu o que eles aprontavam. Mesmo assim, é culpado. Culpado por ser muito inocente.

Posted by Tiezzi at 11:36 PM

agosto 11, 2005

tempo, tempo, tempo

Em um dia como outro qualquer, Ernesto entrou no elevador do seu prédio para ir ao trabalho. Quando apertou o botão do subsolo reparou pela primeira vez em um outro botão ao lado, que tinha um desenho de duas setas apontadas uma para outra. Curioso, apertou-o. Mal desconfiava que aquilo iria mudar sua vida.

O botão das setas fez com que a porta do elevador se fechasse antes do tempo normal. Ernesto descobriu que tinha esse recurso: em vez de esperar os 10 segundos que a porta levava para fechar-se, bastava usar o botão e o tempo seria reduzido para 3 segundos. Fez os cálculos: usava o elevador em média quatro vezes ao dia – para ir ao trabalho, voltando do trabalho, a descida noturna para um café ou cigarro na padaria da esquina, a volta da padaria. Em cada vez, economizaria 7 segundos. Total do dia: 28 segundos. O que equivale a 196 segundos na semana (pois mesmo no sábado e domingo usava o elevador 4 vezes) e 840 segundos em um mês de 30 dias. No ano, terá poupado incríveis 10.220 segundos, ou 170,33 minutos. Ou 2 horas, 50 minutos e 20 segundos!
Quando saía com seu carro, Ernesto descobriu que não era necessário que a porta da garagem estivesse completamente aberta para que ele passasse. O portão automático era lento. O processo de abertura levava 15 segundos, mas já no décimo segundo dava para passar. Calculou: 5 segundos por dia na ida, 5 na volta, 300 no mês, 1 hora, 49 minutos e 48 segundos no ano. Somado ao elevador, já seria uma economia de 4 horas, 40 minutos e 8 segundos ao ano.
Evidentemente que quando chegou ao trabalho percebeu que o processo todo se repetia. É claro que no elevador não podia sempre dispor do botão das setas porque outros funcionários – inconscientes do tempo que perdiam diariamente – retardavam o esquema. Mas achou justo considerar o mesmo valor para efeito de economia, já que no trabalho andava de elevador mais vezes: no mínimo havia a subida e descida do almoço. Portanto, se em metade das vezes conseguisse usar o botão salvador, seriam mais 2 horas, 50 minutos e 20 segundos economizadas. Com o estacionamento da firma, cujo portão era semelhante ao do seu prédio, mais 1 hora, 49 minutos e 48 segundos. Já estava em incríveis 9 horas, 20 minutos e 16 segundos que poderia ganhar a cada ano.
Mas Ernesto não parou por aí. Descobriu no trânsito uma rica fonte de lucro temporal. Ao abrir um farol, percebeu que levava preciosos 6 segundos até engatar e colocar o carro em movimento. O mesmo raciocínio valeria se não fosse o primeiro da fila, pois nesse caso os segundos são perdidos entre a saída do carro da frente e o dele.
Até sua casa, contou 31 semáforos, descontou uns 8 que estariam abertos e chegou à razoável média de 23. Dobrou o número, pois tinha que considerar a ida, e multiplicou pelos cinco dias úteis. Nos fins de semana, pegava uma média de 15 faróis por dia nos passeios com a família. Total: 260 por semana. A 6 segundos em cada, dá um tempo perdido de 1.560 segundos. No ano, são 81.120 segundos. Ou 1.352 minutos. Ou 22 horas, 31 minutos e 48 segundos.
Para Ernesto foi realmente um baque perceber que poderia economizar 31 horas, 52 minutos e 4 segundos. Ganharia mais que um dia de sua vida a cada ano com simples mudanças de atitude. Para ele, recuperar o tempo perdido passou a ser uma obsessão. Acordar 5 minutos mais cedo e ir dormir 5 mais tarde significava 60 horas, 49 minutos e 48 segundos ganhos ao ano. Dois minutos a menos no banho eram 12 horas, 9 minutos e 36 segundos. Almoçar e jantar alguns segundos mais rápido, encurtar o papo da hora do cafezinho, aproveitar os 15 minutos do intervalo do futebol na tevê, parar de catar milho e aprender a digitar mais rápido, colocar as contas no débito automático, comprar sapatos sem cadarço, leitura dinâmica. Até o sexo tem os seus minutos inúteis que poderiam ser cortados, com a concordância da mulher, é claro.
Colocou tudo no papel e teve uma inacreditável surpresa. A cada ano, com seu programa de economia de tempo, já batizado PET, ou PMT, programa de metas temporais, pois resolveu deixar os dois nomes para não perder tempo na escolha, iria economizar 6 dias, 4 horas, 37 minutos e 44 segundos!
Foi um choque. Daqui para frente sua vida iria mudar. Estava exultante.
Mas logo entristeceu. A constatação lhe trouxe a perspectiva contrária. Pensou em quanto tempo havia perdido no passado. Ernesto tem 45 anos. Uma vida de muitos elevadores, faróis, sono, cafezinhos, futebol, computador, sapatos. Com um cálculo aproximado, poderia considerar os mesmos 6 dias, 4 horas, 37 minutos e 44 segundos como tempo perdido em cada um dos anos que viveu. Pegou a calculadora com receio. Descobriu a terrível realidade: já havia desperdiçado 278 dias, 15 horas, 47 minutos e 57 segundos de sua vida.
Se tivesse apertado o botão do elevador antes...
A melancolia não se afastou mais. Por conselho da mulher e dos amigos, Ernesto foi parar no analista. Lá despejou suas angústias. Sentia-se melhor a cada seção. A não ser, claro, quando a terapeuta dizia que seu tempo havia acabado. Nessa hora, saltava do divã e ajoelhava-se aos pés dela, implorando: “Só mais dois minutos! Só mais dois minutos!”

Posted by Tiezzi at 11:19 AM