Sei quem era sim, claro. Ficava por aí, batendo sandália o dia inteiro. O barato dele era fazer pergunta. O problema é que nunca era coisa fácil, tipo onde fica o Partenon ou se Zeus era com Zeta ou com Sigma. A coisa sempre terminava ou em briga ou no boteco. No fundo, falta do que fazer. Sabe como é, naquele tempo metade pegava no pesado e a outra metade dizia que democracia é assim mesmo. Dizem as más línguas que era hetero, mas isso aí eu já acho que é intriga da oposição. Afinal de contas, neguinho querendo ver o barbudo pelas costas é o que mais tinha. Tanto é que teve um julgamento aí pro homem. Barra pesada, eu estava lá carregando pedra e vi tudo. O vovô não era de levar desaforo pra casa, não. Um autoridade lá disse que ou ele se emendava ou ia ter que tomar cicuta. O barba só olhou, deu um sorriso de canto e emendou: “E eu lá sou homem de recusar birita?”
Perseu de Acaraxim, escravo em Atenas
Grande homem! Era tão respeitado lá no mosteiro que eu tinha até medo de me aproximar dele. Um dia criei coragem. Perguntei como é que ele tinha feito pra chegar num estágio de sabedoria tão alto. O bispo Agostinho deu um sorriso cordial e perguntou se eu aceitava tomar um vinho com ele. Puxa, era uma honra. Ele começou a contar da sua adolescência e juventude de perdição, sempre sereno apesar de estar relatando as maiores barbaridades. Ao contrário, parecia até que comprazia-se em relembrar os tempos de outrora. Ofereceu-me mais vinho. A tarde foi passando e o bispo contou-me das prostitutas, dos roubos nos quintais dos vizinhos, dos jogos de azar, das más companhias. Abrimos outra garrafa, e depois outra. Em determinado instante sugeri pararmos, pois o bispo Agostinho já tinha idade avançada. Ele empurrou a garrafa contra a minha face, irritado, e ordenou: Toma e bebe. Contava das arruaças que participou e sua risada ecoava por todo o mosteiro. Eu fiquei confuso com aquelas palavras, com relação à minha vocação. Foi quando o santo homem colocou as mãos em meu ombro, me puxou para perto de si e disse: “Meu filho, depois de tudo que lhe contei você ainda está confuso?” Foi uma iluminação. Naquele dia mesmo larguei aquela porcaria e caí na gandaia.
Miguel Tertulius Feliciano, ex-noviço da igreja de Hipona e depois promoter de eventos em louvor a Dioniso
Olha, o que mais eu lembro do velho Leleu foi o perrengue que ele passou lá com a tal da Santa Inquisição. Santa roubada que ele se meteu, isso sim. No começo, o Leleu dizia que não ia mudar uma vírgula do que ele tinha escrito. Aí nós, os amigos, começamos a ponderar, manera daqui, manera dali, tu vai virar churrasco etc. etc. Amigo é pra essas coisas, aos poucos fomos fazendo a cabeça do homem. O Fibonacci, um compadre responsa nosso, dizia que se fosse pra evitar confusão valia até falar que a Terra tinha formato de cone. Melhor um errado vivo do que um punhado de cinza coberto de razão, concorda? Só que o Leleu era teimoso que nem uma mula. Aliás, um dia ele teimou que se jogasse uma mula e um pacote de macarrão de cima da torre caía os dois ao mesmo tempo. Vê se tem cabimento. Mas nosso aconselhamento foi dando resultado. Aos poucos o Leleu concordou em mudar uma vírgula aqui, tirar um parágrafo dali, suprimir uma idéia ou outra que não ia mudar muito o conjunto da obra... Mesmo assim quando ele foi pro tribunal ficou todo mundo apreensivo. Na volta foi aquela muvuca em cima do Leleu: E aí, negou que a Terra gira em torno do Sol? E ele: “Que Terra gira em torno do Sol? Estão malucos!? Onde é que vocês ouviram uma barbaridade dessas?”
Condolezzo Bambonieri, amigo e conselheiro de Galileu
Ah, esse era uma figuraça. Chegou aqui um dia abraçado no pescoço de um cavalo dizendo que não era louco coisa nenhuma. Aí olhava pro cavalo e pedia: “Explica pra eles, Jurandir”. Gente boa, mas todo irritadinho. Um dia um outro maluquinho entrou no quarto chamando ele de Nietzsche e recebeu de volta uma ameaça: “Nietzsche é o caralho! Meu nome é Anticristo, porra!” A rapaziada tentava respeitar mas era difícil. No outro dia o sujeito já queria ser chamado de Teseu, o Tesudo, depois de Brancaleone, no outro já era Waguinho da Cuíca e por aí vai. Filósofo maluco é fogo, em vez de ser Napoleão que nem todo mundo. Pior foi no dia em que ele raspou o bigodão e anunciou que a partir daquele dia podiam chamá-lo de Matilde Mastrangi. Diziam que tinha uma maldição que quem fosse normal e chegasse perto do homem ficava louco também. Eu sempre achei besteira. Afinal o que é ser louco? E o que é ser normal? E o que é ser (sai cantando e dançando, imitando As Frenéticas) mutcho louco, muthco louco, mutcho looouco... dentro de mim.
Hanz Fritz Franz Frutz, enfermeiro do sanatório em que Nietzsche passou os últimos dias de vida
O carequinha? Sei quem é. Morava logo ali ó, no segundo andar. Aqui da porta da birosca dava pra acompanhar toda a movimentação, sabe como é. Eu não quero me meter onde não sou chamado, mas sabe como é, a rapaziada comenta, é ou não é? E o que a gente via era que vivia saindo e entrando uns garotão marombado ali na casa do careca. Sabe que deram até um apelido pra ele? Kojaka! Há, há, há, não é muito boa!? Opa, foi mal aí doutor, mas sabe como é a rapaziada, cheia de preconceito e coisa e tal. É, tô ligado que ele liberava o Fucô. Ah, o nome dele era Fucô. Fazia filosofia? Sei, sei... eu, pra falar a verdade, não tenho nada a ver com isso: a mente é dele, modos que ele abre pra quem ele quiser. É ou não é?
Jean-Louis Sabonet, garçom do bar na esquina da casa onde viveu Michel Foucault
Foi criado pelos tios porque os pais... bem, não convém contar história tão triste. Como se não bastasse, o tio apreciava brincadeiras sarcásticas, e repetia para o guri diariamente, com olhos arregalados e tom apocalíptico, para ele jamais – jamais! – abrir o armário do quartinho do fundo. “Senão” – o tio fazia uma pausa, olhava para os lados como se estivesse sendo vigiado – “a velha louca sai de lá e arranca suas orelhas”.
Nem é preciso dizer que aquilo causou profunda impressão ao garoto de 9 anos. Tinha já a sensibilidade aguçada pela perda dos pais naquele acidente... deixa pra lá. Nunca se aproximou do tal armário.
Na escola, perguntava-se se alguma das suas professoras não seria a velha louca que teria escapado. Quando expôs esse medo ao tio esperando conforto, ouviu apenas um “quem sabe, quem sabe”.
Cresceu vendo a velha louca em tudo. O tio contribuía. Cada desastre, cada catástrofe, cada acidente, incidente, terremotos, furacões, era coisa de alguma velha louca que saiu de armários que jamais deveriam ter sido abertos. Pensou nos pais. Já era maduro para entender que tinha sido coisa da velha louca.
Jovem, estudante de belas artes, ficou profundamente impressionado com o auto-retrato de Van Gogh. Sem orelha. Será? Ligou para o tio. Já não moravam na mesma cidade. O tio continuava na velha casa do interior. Protegendo o armário, dizia. Contou sobre Van Gogh. O tio disse que o retrato havia sido pintado pela velha louca. “Como Van Gogh olharia para si mesmo?”, argumentou. O sobrinho desligou atônito.
Casou-se, separou-se, arrumou empregos, foi despedido. Passou a colecionar fracassos. A sombra da velha louca a perseguia. Fez análise, começou a dar resultados, mas certo dia caiu em si que a psicóloga era velha. Nunca mais voltou.
Um dia recebeu a notícia que o tio estava muito doente. Ele esteve ao seu lado até o último suspiro e as últimas palavras: “A velha louca...”
Carregou aquele medo atávico pela vida afora. Passou pela idade da razão e chegou à idade em que a razão vai embora. Estava velho. E só. As jovens não o queriam, e as velhas era ele que não queria. A essa altura, já tinha consciência de que havia deixado de viver por causa de uma fantasia, uma alucinação da mente doentia do tio.
Tudo o que queria agora era partir em paz. Sabia que tinha uma missão a cumprir.
A velha casa estava trancada. Há anos ninguém entrava ali. O pó do tempo se acumulava nos móveis. Lembrou de quando corria por aquelas dependências. Quando aprontava, o tio dava um jeito de mencionar a velha louca. Um método pedagógico pelo qual ele pagou caro.
Caminhou com suas pernas fracas até o quartinho. O armário ainda estava lá, o mogno escuro e imponente. Sua vida ficara trancada ali dentro. Ele colocou a mão na maçaneta e sentiu medo. Mas girou-a com decisão e abriu o armário.
Aí a velha louca saiu lá de dentro e arrancou suas orelhas.
A Secretaria de Educação de Goiás afastou o professor Delúbio Soares por abandono de cargo. Rigor é isso aí: esperaram 20 anos, Delúbio não apareceu pra dar aula, tá fora.