março 27, 2006

mulher proibida

Lindas pernas, seios e nádegas generosas e, no caminho, uma cintura fina e delicada. Corpo esculpido, lábios carnudos, aliança no dedo.
- Aceita um drink?
- Não, obrigada. Só estou esperando a chuva passar.
- Então ouça a previsão, baby: melhor esticarmos os lençóis por aqui mesmo.
- A previsão do tempo sempre erra.
- Eu me refiro à minha previsão de que terminaremos a noite dividindo o mesmo lençol. E eu não costumo errar.
- Sou casada.
- Sinto que alguém tenha que sofrer, baby. Mas que não seja nem eu nem você.
Eu podia sentir a respiração dela se alterar. A respiração é um diagnóstico preciso dos labirintos da alma feminina. A dela era curta e sem ritmo. Ela poderia me chamar de calhorda e ameaçar chamar a polícia: de qualquer maneira eu já podia agarrá-la e beijá-la com fúria.
- Você é um calhorda. Vou chamar a polícia.
Agarrei-a e beijei-a com fúria. Ela se afastou. A respiração era quase um suspiro. Deu-me um tapa. Eu estava no controle da situação.
- Conheço um hotel discreto aqui perto, baby.
Ela falou que jamais iria para um quarto de hotel com um desconhecido. No hotel, transamos loucamente. Na manhã seguinte, um bilhete:
“Não devíamos ter feito isso. Meu marido é perigoso. Não me procure mais”. E, abaixo, o endereço.
A mansão era toda branca. Branco simboliza problemas. As pessoas esquecem que quando se sai do conforto do ventre materno um sujeito de branco te coloca de cabeça pra baixo, estapeia-lhe a bunda e se diverte enquanto você chora. E ainda dizem que é a cor da paz.
O segurança perguntou gentilmente o que eu fazia ali. Quando ele parou de torcer meu braço mostrei meu cartão e me apresentei: Carlos Cascalho, corretor de seguros para animais de estimação. Ele perguntou se eu estava zombando da cara dele. Respondi que era uma profissão nova. Ele me mostrou o cartão: Alfredo Manfredi, serenatas a domicílio. Droga, errei de cartão. A respiração do sujeito era rude.
Ela surgiu no alto das escadas quando ele se preparava para dar o quinto chute em meu estômago: “Tony, deixe o rapaz em paz imediatamente.” Tony ainda deu o quinto e o sexto chute. Subalternos, sempre ineficientes.
- Você não devia ter vindo.
- Eu faço muitas coisas que não deveria fazer, baby. Quando criança minha mãe me pegou espiando a vizinha se trocar e disse que aquilo não era certo. Desde então aprendi que o que não é certo é o que vale a pena nessa vida.
- Meu marido vai te matar.
- Morro em nome de um ideal.
Fomos tirando nossas roupas a caminho do quarto. Pensando bem, o marido só teria o trabalho de seguir a trilha. Mas quem estava pensando bem àquela altura?
O marido nos flagrou no clímax do segundo ato.
- Yolanda!
- Ei, espere – eu disse virando-me para ela. – Você não me disse que seu nome era Yolanda.
- Claro, eu nunca lhe disse meu nome.
- Yolanda, você traz um sujeito para nossa cama que nem sabe seu nome?
O sujeito estava preocupado com formalidades numa hora daquelas. Yolanda estava assustada. Eu sentia seus seios tremerem na minha mão.
O marido sorriu e estalou os dedos. Um fotógrafo apareceu e começou a registrar a cena. Detesto ser fotografado nu. Tenho as costas peludas.
- Muito bem – explicou o marido. – Agora que tenho o flagrante podem se retirar dessa mansão. Você vai ficar sem nada, Yolanda. E se tentar arrancar um centavo da minha fortuna, mando a foto para as revistas de fofoca.
- Nesse caso o meu cachê vai ficar mais alto. Afinal, isso não faz parte do trato.
Sou bom para negociar. Implacável. Yolanda não parecia acreditar. Tive vontade de abraçá-la, mas não misturo negócios com questões pessoais.
- Sinto que alguém tenha que sofrer, baby. Mas que não seja eu nem meu cliente aqui – nessas horas costumo usar o cinismo para esconder emoções.
O marido tirou minha mão do seu ombro.
- O senhor retire-se também. Imediatamente.
- Sinto muito. Só saio daqui com meu pagamento. E em dinheiro.
O marido sorriu e estalou os dedos. O Tony apareceu.
Hoje, vendo a coisa em retrospectiva e medindo ganhos e perdas, ainda tive um lucro modesto. De um lado o calote e minhas costas peludas nas revistas (sim, ela tentou no tribunal ficar com metade da fortuna dele). Do outro, uma mulher deslumbrante. Então lembro dela e começo a falar alto para o garçom: Um brinde à minha vizinha e a todas as mulheres proibidas. Tento levantar o copo de uísque mas a tipóia no braço não deixa. Então lembro do Tony.

Posted by Tiezzi at 3:49 PM

março 15, 2006

a arte do desencontro

Eram oito à mesa. Três casais e a Flávia e o Juraci solteiros. Os outros forjaram o jantar para que a Flávia e o Juraci se conhecessem. A Margareth arriscou um prognóstico:
- Casal que eu apresento jamais se separa.
A Flávia e o Juraci coraram.
- E o Beto e a Fernanda? – lembrou o Nunes.
- Que é que tem? – quis saber a Margareth.
- Você os apresentou e hoje estão se divorciando.
- E na Justiça! – acrescentou o Bicalho.
Margareth se serviu de mais salada como quem diz “tudo tem uma exceção”. (Se é que é possível o ato de se servir de salada significar alguma coisa.)
A verdade é que o esforço coletivo mais atrapalhava do que ajudava na missão. A Flávia e o Juraci mal conseguiam se olhar, quanto mais trocar palavras. Os outros seis observavam cada movimento, cada reação. Os estímulos não faziam efeito.
- Juraci, eu contei para a Flávia quem é você no chá-chá-chá – tentou a Belinha.
- Pois é – limitou-se a responder o Juraci. E se serviu de mais salada.
- A Flávia gosta muito de dançar. Não é, Flavinha?
- É.
A cada diálogo lacônico se seguia um silêncio prolixo. Houve tentativas de puxar diversos assuntos: política, futebol, aviação civil, novela, o trabalho do Nestor, a lentidão da Justiça, misticismo, as férias do Valdir, a mancada que o Nestor deu com o chefe, o atrevimento da vizinha do 402. O Zé Miguel tentou expor sua teoria sobre a influência do Big Bang no Bang Bang, mas se atrapalhou no meio. O Nestor começou a se deprimir e se serviu de mais salada.
O Juraci e a Flávia escorregavam cada vez mais na cadeira, querendo sumir. O Valdir arriscou um chiste dizendo que os dois queriam ficar a sós embaixo da mesa. O constrangimento aumentou.
Às 10h30 o Bicalho perdeu a paciência:
- Pra mim chega. Esses dois não vão desencalhar nunca – fez uma pausa e emendou. – E eu não agüento mais comer salada!
A Margareth aproveitou a deixa para ir buscar o faisão no forno. A Helena tentou colocar panos quentes.
- Calma, Bicalho. É o jeito deles.
O Valdir pôs a mão sobre o braço da esposa.
- Deixa, deixa. Alguém tem que falar.
Seguiu-se uma saraivada de comentários, críticas, reprimendas, observações sinceras sobre a Flávia e o Juraci. Às vezes falavam para eles, outras conversavam entre si como se não estivessem presentes. O ponto central era que aquele comportamento anti-social estava começando a ficar desagradável.
- Começando? A gente não suporta esses dois há anos! – corrigiu o Bicalho.
A Belinha tentou ser compreensiva.
- A gente achou que talvez se vocês se conhecessem... Afinal...
- ... são duas múmias – completou o Zé Miguel.
A explosão de sinceridade tornou o jantar até divertido. E, quem sabe, o método radical não surtiria efeito? Vai que o Juraci e a Flávia resolvessem reagir e liberar o humano, demasiado humano, que vivia dentro deles? Quem sabe o jantar não terminava com o Juraci tomando uma atitude, jogando a Flávia em cima da mesa e a agarrando ali mesmo, entre o faisão e os tomates cereja? A Margareth decidiu provocar.
- E aí, ô dois. Vocês não vão falar nada, não?
A Flávia ameaçou, mas como se tivesse se engasgado com a palavra desistiu e baixou a cabeça. O Juraci sentiu-se injustiçado. Encheu-se de coragem para responder.
- Pois é.

Posted by Tiezzi at 1:17 AM