setembro 28, 2006

o primo de Deus

A culpa pelos fanáticos, pelos intolerantes, pelos doutrinadores, pelas guerras santas, pelo Oriente Médio, pela Idade Média, a culpa pelo ódio religioso, o pivô do pecado original, o sujeito que nos enxotou do Paraíso, que nos colocou de joelhos, o que vê o cisco no olho do inimigo, a serpente, o culpado por tudo isso que está aí é um só: o primo de Deus.
Não que seja má pessoa. Irresponsável, é certo. A explicação é simples. As pessoas procuram Deus, mas Deus não é um tipo muito sociável. Prefere ficar na Dele, longe de sua criação, despido de qualquer vaidade em relação à Sua obra. Não sentou sobre os louros da fama por ter criado o universo infinito nem pára pra ler as críticas, que devem ser infinitas.
Quem criou tudo não tem mais nada a fazer, ora essa. A Deus só restou o descanso pela eternidade, embora se diga que descansou só em um dia, o sétimo. De lá pra cá deve estar se dedicando a outros projetos.
O homem, xodó do Senhor, que cuide de si mesmo. O livro arbítrio está aí para ele fazer as arbitrariedades que quiser. O que não dá é ficar carregando o homem nas costas a vida inteira. Haja onipotência.
Além do mais, se o Todo Poderoso botar a cara pra fora a fila de gente pedindo coisas ia dobrar o quarteirão do planeta, se a Terra fosse quadrada, naturalmente. Fora o que ia pintar de paparazzi.
Sendo assim, mesmo correndo o risco de parecer pedante e anti-social, Deus decidiu jamais aparecer para ser humano nenhum. E o homem – digo, o Deus – tem palavra. Não é como porteiro de boate, que se rolar um uisquinho ou uma donzela mais atrevida, pode passar, sabe como é. Não, no caso do Senhor se desse o privilégio pra um tinha que ser pra todo mundo. E todo mundo, no caso, seria realmente todo o mundo.
E assim se fez o sumiço.
Acontece, porém, o seguinte. Raciocinem comigo. Em toda família que tem um bem sucedido – não precisa ser grande coisa, não, pode ser o sujeito que chegou entre os cem na São Silvestre –, pois é, mesmo nesses casos sempre há um parente que preferiu ficar na cerveja mas quer pegar carona no êxito alheio.
Quase sempre quem cumpre o papel é um primo ou cunhado. O primo foi promovido a supervisor técnico auxiliar e o carona começa a cantar a mulherada da firma, com o papo de que o outro sempre se inspirou nele. O cunhado é artilheiro do campeonato do clube e ele lembra os tempos em que lhe aplicava dribles desconcertantes.
O parasita do sucesso é sempre infinitamente mais vaidoso do que o titular. Ele é a sombra de quem está no pódio, o cara que na fotografia sorri mais que o homenageado.
Considerando que Deus não tem cunhado, pelo fato notório de nunca ter casado e não haver registro de irmãs, quem assumiu o posto foi o primo. Esse sim gosta de aparecer. A reclusão do Primo famoso em contraste com o frenesi que provoca é o paraíso pra ele. O parente célebre é citado a todo instante, chegou a ser quase tão famoso quanto os Beatles. Já que o Primo não quer os holofotes, ele quer.
Conclui-se que toda vez que um indivíduo, ou grupo, ou seita, ou comunidade, vilarejo, líder, pé-rapado, chefe-de-estado, fiel, crente, temente, alucinado, entorpecido, embriagado, acidentado, iluminado, convertido, ex-pervertido, ex-desajustado, guru, messias, milagreiro, pregador, pagador de promessa, ermitão, beata, profeta, desapegado, destrambelhado, lunático, fanático, pinel, coroinha, paranormal, mago, místico, asceta, mandingueiro e procissões inteiras afirmarem que viram Deus, na verdade não viram Ele, mas ele, o primo.
Que, evidentemente, não fez questão alguma de ser renegado a um mero parente divino. Se o questionaram se era Ele mesmo,o Deus em pessoa, o primo não hesitou em confirmar e contar sua história. “No princípio era o verbo, aí a coisa foi indo, foi indo...”
Como disse, não por má índole, mas por tratar-se de figura galhofeira e cuca fresca em excesso. O primo não é muito chegado em medir conseqüências, em ponderar prós e contras, essa coisa toda. Ele quer mais é levar a vida na harpa. Seu alimento são as honrarias que recebe no lugar do Outro.
Algumas vezes a consciência pesou (influência do Primo) e ele resolveu abrir o jogo com o interlocutor. Deus é inacessível. Nem ele, que é primo, veja você, o tinha visto, que dirá um visitante que nem é da família? E ainda aconselhava: esquece essa história de ver Deus e vai cuidar da vida, malandro.
Mas não adiantava. A pessoa estava convencida de que ele era Deus sim, negando que O era em sua infinita modéstia.
Então, um dia o primo concluiu que a culpa nem era dele. Ele queria se passar por Deus, a humanidade queria que ele se passasse por Deus, então negócio fechado.
E assim ele vai levando a vida que pediu ao Primo. Sempre na crista da onda, sem preocupações nem crise existencial. Só de vez em quando entra numas de filosofar: Já pensou se meu Primo não existe?
Aí pensa: que diferença faz? E volta pro seu jogo de pôquer.

Posted by Tiezzi at 12:59 PM