outubro 25, 2006

memórias

Acabei de completar 85 anos e resolvi escrever minhas memórias. Tomei essa decisão depois que... depois que... eu não me lembro exatamente depois de que, mas não tem importância. O que importa é que aos oito anos. Ou foi aos nove? Não, acho que foi aos dezesseis. Isso: dezesseis. Aos oito anos, eu perdi meu emprego.
Que foi, dona Genoveva? A dona Genoveva, a governanta que me acompanha faz... faz quantos anos, dona Genoveva? Exato, cinco anos. Ah, cinqüenta!? Nossa, o tempo passa, hein dona Genoveva. Mas do que estávamos falando mesmo? Ah, sim, a dona Genoveva me disse que eu perdi o emprego aos 45 anos, e que não é Genoveva, e sim Gertrudes.
Então, como eu ia dizendo, aos 18 eu resolvi entrar pra Marinha. Eu queria ser soldado. Que foi, dona Genoveva? Soldado na Marinha? A senhora enlouqueceu? E pára com essa mania de ler por cima do meu ombro.
Bem, então eu me casei e a cerimônia foi exatamente do jeito que eu contei. Era bexiga, brigadeiro, língua de nora, todos os amiguinhos estavam lá. Nunca esqueço aquele aniversário. Teve até aquele palhaço famoso. Aquele que tinha feito um filme, como era o nome? Que no filme ele fazia o papel de um... como é o nome daquela profissão? Aquela que o sujeito fica dentro daquele negócio que anda em cima de um trilho? Bom, enfim, eu só sei que foi uma perda muito triste pra mim. Foi muito de repente, e o tio Leopoldo era um tio que eu gostava muito. Ainda ontem ele veio aqui. Quem o quê, dona Gioconda? O tio Leopoldo morreu, não acabei de dizer? A senhora quer fazer o favor de deixar eu me concentrar. Assim eu perco o fio da meada.
Tem coisa que eu me lembro que parece que foi hoje. Eu lembro bem de uma manhã que eu resolvi dar um passeio na praia, depois à tarde joguei um dominó com a velha guarda e no fim do dia resolvi escrever minhas memórias. Ah, a velha guarda. Somos quatro no buraco: a hora que um morrer tem que mudar de jogo. Não é à toa que chamam a gente de trio parada dura. Que quarto, dona Germana? A senhora vai arrumar o quarto? Faça isso, e não me torra mais a paciência. Eu aqui lembrando da amizade com o Edgar, o Helio e o Matias e você me interrompe. Que foi? Fala mais alto, dona Gisleine, a senhora com essa mania de falar baixo. Ah, sim, dessa vez a senhora tem razão. O trio é o Walter, o Cabral e o Leleco. É que esses nomes são tudo parecido e eu me confundo.
Bom, sobre minha esposa, o que que eu posso falar? Tem tanta coisa que eu até esqueço. Viver é um negócio maluco. É como eu estava dizendo: se a gente não batalhar, igual eu fiz nesse caso da firma de seguro, aí a coisa não vai. Trabalhei 25 anos nessa empresa de demolição e sabe o que aconteceu? É até difícil falar dessas coisas que emocionam. Ver o Pedrinho ali na maternidade. Primeiro filho é fogo. Depois nós fomos pra casa e o Joãozinho, o mais velho, ficou naquela ciumeira.
Logo em seguida eu ganhei meu primeiro patinete. Foi no quintal do meu vizinho, o Landinho. A gente subia na mangueira do seu Aderbal pra roubar jabuticaba até um dia que o cachorro percebeu. A emoção de ganhar o primeiro cachorro é indescritível.
Mês passado eu estava ensinando pra minha nora como é que faz pro Gabriel, meu netinho, não esquecer a tabuada nunca mais. Fala, dona Filomena... será que a senhora só sabe me interromper? Claro que foi o mês passado, dona Filomena. Mas que 20 anos, dona Filomena? Eu sei que o Gabriel tem 26, e o que isso tem a ver?
A senhora vai deixar eu continuar? Vai buscar um chá pra mim, vai. Isso, me deixa em paz. Fica me desconcentrando e eu acabo esquecendo tudo.
Então, meus caros leitores, esse é o primeiro capítulo da minha história. São 85 anos de vida, e recordar o passado assim desse jeito faz tudo ficar tão nítido. Amanhã eu vou contar de quando... de quando... não posso esquecer de pedir pra dona Jesuína me lembrar de escrever amanhã. Nessa tarefa precisa de disciplina; disciplina é tudo. Cadê aquela velha caquética que some na hora que a gente mais precisa? Ah, apareceu a margarida. Onde a senhora se enfiou? Não quero chá não, obrigado. O que eu quero é que a senhora não deixe de me lembrar de jeito nenhum que amanhã eu tenho que regar as plantas.

Posted by Tiezzi at 12:30 AM

outubro 22, 2006

dúvida retumbante

- Pai, o que é fúlgido?
- O quê?
- Fúlgido. Que que quer dizer?
- Onde você viu isso?
- No hino nacional. Você sabe o que significa?
- Bem... depende do contexto. Qual é a frase inteira mesmo?
- E o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria nesse instante.
O pai nunca tinha prestado atenção ao trecho. Mas não queria passar por anti-patriota.
- Seguinte: o hino está dizendo que o sol brilhou de um jeito todo especial naquele instante, entendeu?
- Ah.
O pai voltou para o jornal. Cumprira seu dever cívico.
- Que instante, pai?
- Como assim que instante?
- Você disse que o sol brilhou no tal instante.
- Não, não fui eu que disse. Foi o hino – disse o pai tentando ganhar tempo.
- E o que significa?
O pai cantou mentalmente para ver do que se tratava.
- Ah, sim. Pra gente entender, a gente tem que ir na frase seguinte. “Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte.”
- Pai, o que é...
O pai se apressou em interromper.
- Quer dizer, na frase anterior. O sentido está na frase anterior. Naquele instante, o do grito, o sol brilhou com seus raios fúlgidos.
- Que grito? Não tem grito nenhum.
- Claro que tem. Aqui ó: de um povo heróico o brado retumbante. Brado é grito.
- Ah... E retumbante, é o quê?
- Forte, alto.
- Quem gritou?
- O povo. O povo heróico.
- Um monte de gente gritou ao mesmo tempo?
- Acho que sim. Quer dizer, foi. É o que o hino está dizendo, não é?
- E todo mundo gritou a mesma coisa?
- É – respondeu o pai sem muita convicção. Mas por ora a explicação estava boa. O filho voltou para a lição.
- Pai, o que é plácidas?
- Limpas.
- E ouviram?
- Como?
- O que é ouviram?
- Ué, é do verbo ouvir. Eles ouviram.
- Ah, então o começo do hino é como se fosse “eles ouviram do Ipiranga”?
- Isso mesmo – disse o pai. E pensou: garoto esperto.
- Quem ouviram?
- Quem o quê?
- Quem ouviram o grito?
- Quem “ouviu” você quer dizer.
- Mas no hino não é ouviram?
- Sim, mas a pergunta é quem ouviu.
- Então tá... e quem ouviu?
- Ah, as pessoas.
- Que pessoas?
- O povo, os brasileiros.
- Mas não foi o povo que gritou? Você acabou de dizer.
- É... foi.
- Eles gritaram e eles mesmos ouviram?
E agora? O pai nunca havia se tocado desse problema. Tinha que pensar rápido.
- Não, meu filho. Alguns gritaram e outros ouviram.
- Ah – os olhos do menino se iluminaram como se agora tudo fizesse sentido. – E estava sol?
- É, estava sol.
O filho largou o livro e foi brincar. O pai ficou imaginando a cena: um monte de gente de um lado do Ipiranga gritando Independência ou Morte e, do outro, um monte de gente ouvindo. Todo mundo debaixo de sol. Definitivamente não fazia sentido.
É por isso que esse país não vai pra frente, pensou. E largou o jornal.

Posted by Tiezzi at 1:17 PM

outubro 17, 2006

história macabra

Em uma tarde em que foi até a esquina comprar cigarros Brandon descobriu que sua sombra o perseguia. Assustado, em sua mente passou um filme de sua vida em que ela, sempre ela, estava lá, dividindo a cena como personagem principal. Uma vilã que não só vivia nas sombras como era a própria sombra, vigiando-o dia e noite, sabendo de tudo o que ele fazia, inclusive seus segredos mais íntimos como o gosto que tinha em passar pincel de barba nos mamilos. Assombrado, assombração... tudo agora fazia sentido.
Brandon passou a temer aquele ser sempre à espreita. Tentou convencer a si mesmo que era melhor ter o inimigo por perto, mas não adiantou. Depois passou a tentar antecipar os movimentos da sombra, mas cada vez que virava rápido a cabeça para flagrá-la, ela, dissimulada, virava também. Era pérfida. E aquele seria um convívio para o resto da vida.
Em uma noite de lua cheia Brandon caminhava pela rua vazia. Apenas o som de seus passos e a sombra silenciosa o seguindo. Virou para trás e ela estava lá, especialmente alongada naquela noite. Correu o mais rápido que pôde, mas a sombra era tão rápida quanto ele. Dobrou esquinas, pulou poças d’água, gritou por socorro. Quando parou, sem fôlego, ela ainda estava lá, agora à sua frente. Ameaçadora.
Brandon se suicidou com quinze facadas no peito, mas com a certeza de que a sombra enfim o apunhalara.

Posted by Tiezzi at 4:00 PM