março 4, 2007

o outro

Briga de mãe e filho. Ânimos exaltados. Em sua velha poltrona, o idoso pai parecia estar distante, embora de vez em quando murmurasse:
- Eu falei que a gente tinha que ter pegado o outro.
O filho, cabeça quente, não prestava atenção às caduquices do velho. Gritava com a mãe. E o pai insistindo:
- O outro era bem melhor. A gente escolheu errado.
A discussão se prolongou. O filho nervoso, a mãe chorando, o pai falando do outro.
Em dado momento o filho, quase fora de si, perguntou aos berros que diabo era aquilo que o pai estava repetindo. A gritaria deu lugar a um enigmático silêncio.
O pai quis falar, a mãe não deixou, o filho exigiu. Resolveram contar tudo. O filho era adotado.
O rapaz perdeu o rumo. O pai, aproveitando que finalmente o nó havia sido desfeito, desabafou. Disse que todos esses anos não perdoava a esposa por ela não ter lhe escutado no orfanato, 25 anos antes. Havia um garoto sentado no chão, perto da janela, um tanto afastado dos demais. Tinha cabelo encaracolado e brincava concentrado com seu peão. O pai queria ter ficado com aquele, a mãe é que decidiu pelo escolhido.
- Tá vendo? O outro não ia estar te dando trabalho – sentenciou o velho.
O filho saiu de casa atônito. Pai e mãe se olharam. Com a convivência, aprenderam a dialogar pelo olhar. A mãe entendeu o que o pai estava querendo dizer. E com o olhar respondeu: Não, não dá mais pra trocar.

Posted by Tiezzi at 11:22 PM

mulher proibida

Lindas pernas, seios e nádegas generosas e, no caminho, uma cintura fina e delicada. Corpo esculpido, lábios carnudos, aliança no dedo.
- Aceita um drink?
- Não, obrigada. Só estou esperando a chuva passar.
- Então ouça a previsão, baby: melhor esticarmos os lençóis por aqui mesmo.
- A previsão do tempo sempre erra.
- Eu me refiro à minha previsão de que terminaremos a noite dividindo o mesmo lençol. E eu não costumo errar.
- Sou casada.
- Sinto que alguém tenha que sofrer, baby. Mas que não seja nem eu nem você.
Eu podia sentir a respiração dela se alterar. A respiração é um diagnóstico preciso dos labirintos da alma feminina. A dela era curta e sem ritmo. Ela poderia me chamar de calhorda e ameaçar chamar a polícia: de qualquer maneira eu já podia agarrá-la e beijá-la com fúria.
- Você é um calhorda. Vou chamar a polícia.
Agarrei-a e beijei-a com fúria. Ela se afastou. A respiração era quase um suspiro. Deu-me um tapa. Eu estava no controle da situação.
- Conheço um hotel discreto aqui perto, baby.
Ela falou que jamais iria para um quarto de hotel com um desconhecido. No hotel, transamos loucamente. Na manhã seguinte, um bilhete:
“Não devíamos ter feito isso. Meu marido é perigoso. Não me procure mais”. E, abaixo, o endereço.
A mansão era toda branca. Branco simboliza problemas. As pessoas esquecem que quando se sai do conforto do ventre materno um sujeito de branco te coloca de cabeça pra baixo, estapeia-lhe a bunda e se diverte enquanto você chora. E ainda dizem que é a cor da paz.
O segurança perguntou gentilmente o que eu fazia ali. Quando ele parou de torcer meu braço mostrei meu cartão e me apresentei: Carlos Cascalho, corretor de seguros para animais de estimação. Ele perguntou se eu estava zombando da cara dele. Respondi que era uma profissão nova. Ele me mostrou o cartão: Alfredo Manfredi, serenatas a domicílio. Droga, errei de cartão. A respiração do sujeito era rude.
Ela surgiu no alto das escadas quando ele se preparava para dar o quinto chute em meu estômago: “Tony, deixe o rapaz em paz imediatamente.” Tony ainda deu o quinto e o sexto chute. Subalternos, sempre ineficientes.
- Você não devia ter vindo.
- Eu faço muitas coisas que não deveria fazer, baby. Quando criança minha mãe me pegou espiando a vizinha se trocar e disse que aquilo não era certo. Desde então aprendi que o que não é certo é o que vale a pena nessa vida.
- Meu marido vai te matar.
- Morro em nome de um ideal.
Fomos tirando nossas roupas a caminho do quarto. Pensando bem, o marido só teria o trabalho de seguir a trilha. Mas quem estava pensando bem àquela altura?
O marido nos flagrou no clímax do segundo ato.
- Yolanda!
- Ei, espere – eu disse virando-me para ela. – Você não me disse que seu nome era Yolanda.
- Claro, eu nunca lhe disse meu nome.
- Yolanda, você traz um sujeito para nossa cama que nem sabe seu nome?
O sujeito estava preocupado com formalidades numa hora daquelas. Yolanda estava assustada. Eu sentia seus seios tremerem nas minhas mãos.
O marido sorriu e estalou os dedos. Um fotógrafo apareceu e começou a registrar a cena. Detesto ser fotografado nu. Tenho as costas peludas.
- Muito bem – explicou o marido. – Agora que tenho o flagrante podem se retirar dessa mansão. Você vai ficar sem nada, Yolanda. E se tentar arrancar um centavo da minha fortuna, mando a foto para as revistas de fofoca.
- Nesse caso o meu cachê vai ficar mais alto. Afinal, isso não faz parte do trato.
Sou bom para negociar. Implacável. Yolanda não parecia acreditar. Tive vontade de abraçá-la, mas não misturo negócios com questões pessoais.
- Sinto que alguém tenha que sofrer, baby. Mas que não seja eu nem meu cliente aqui – nessas horas costumo usar o cinismo para esconder emoções.
O marido tirou minha mão do seu ombro.
- O senhor retire-se também. Imediatamente.
- Sinto muito. Só saio daqui com meu pagamento. E em dinheiro.
O marido sorriu e estalou os dedos. O Tony apareceu.
Hoje, vendo a coisa em retrospectiva e medindo ganhos e perdas, ainda tive um lucro modesto. De um lado o calote e minhas costas peludas nas revistas (sim, ela tentou no tribunal ficar com metade da fortuna dele). Do outro, uma mulher deslumbrante. Então lembro dela e começo a falar alto para o garçom: Um brinde à minha vizinha e a todas as mulheres proibidas. Tento levantar o copo de uísque mas a tipóia no braço não deixa. Então lembro do Tony.

Posted by Tiezzi at 11:21 PM

a importância de ser Zé

Houve um tempo em que ser Zé bastava. O nome era suficiente para indicar o cidadão. Na Grécia, onde esse negócio de cidadão começou, Sócrates era Sócrates e pronto, e se alguém perguntava de quem se tratava o outro respondia: o chato que só sabe fazer perguntas. “Ah, sei”, respondia o primeiro.
Mas logo os gregos descobriram que só o nome não bastava. Zenão, por exemplo, tinha dois. Anaximandro confundia com Anaxímenes, que por sua vez toda hora era tratado por Anaxágoras. A solução foi identificar pela cidade. Aí passou a ser o Zenão de Eléia, o de Cício, o Tales de Mileto, o Pitágoras de Samos. Alguns ficavam bem estranhos, como o Xenófanes de Colofão e o Filolau de Crotona, mas esses que fossem reclamar na Acrópole. Eram os primórdios dos sobrenomes.
Hoje, com mais de 6 bilhões de pessoas no mundo, ser Zé não diz praticamente nada. Zé da Silva tampouco. E mesmo se apelarmos para o método grego – o Zé da Silva da Vila Anastácia – ainda assim a coisa não está definida.
- Na Vila Anastácia tem vários Zés. Você não tem mais nenhuma informação?
- Deixa eu ver... Ah, uma vez ele falou que o lugar onde mora chama Beco da Farofa.
- Sei, Zé da Silva da Vila Anastácia do Beco da Farofa. Com qual deles você quer falar?
- Como assim, com qual deles?
- Porque tem o Zé borracheiro, tem o filho da Henriqueta, tem um que está foragido, que você não vai achar de jeito nenhum, tem o Zé da Silva da Vila Anastácia do Beco da Farofa da Dona Dindin...
- Tá bom! Chega, chega. Desisto.
- Que é isso, chefia? A gente chega lá. Você não lembra de mais nada? Qualquer detalhe ajuda.
- Detalhe...? Já sei! Esse Zé tem uma mancha rocha, bem grande, no braço.
- Ah... Agora sim.
O que procurava o Zé ficou aliviado.
- No braço esquerdo ou direito?

Posted by Tiezzi at 11:20 PM

o duelo

Jack Packard era o sujeito mais durão que o Velho Oeste já conheceu. Perto dele, John Wayne parecia interpretar a noviça rebelde.
Corria a lenda de que Packard tinha uma flecha atravessada no crânio, resultado de um embate com uma tribo inteira de índios. Packard – o facínora, o sanguinário, o vil, outros nomes pelos quais era conhecido – teria arrancado o pedaço da flecha que ficou para fora de sua cabeça e jurado que mataria um índio a cada vez que precisasse tomar aspirina. Quando perguntado o que havia feito com o pedaço de flecha, Jack, o maldito, dava uma risada grossa como um rugido, cuspia no chão e respondia que melhor sofrer de dor de cabeça do que de hemorróidas, como o índio que o havia atingido.
Dizem também que certa vez um garçom tropeçou quando ia servi-lo, e derrubou scotch nas botas de Jack, o assassino. Jack tinha especial apreço por suas botas. Volta e meia Jack anunciava aos caras do saloon que tinha sangue índio. Os caras do saloon fingiam surpresa, pois já haviam ouvido aquela história um milhão de vezes, mas quem iria avisar Jack Packard que ele estava sendo repetitivo? Então um deles, seguindo o script, levantava a lebre: "Sangue índio, Jack?" “Sim, nas botas.” E Jack rugia, sendo logo seguido pelos caras do saloon.
Por isso, o garçom ficou tão pálido que um dos clientes sugeriu que ele esperasse morrer primeiro para só depois adotar cor de defunto. Mas, para surpresa de todos, Packard, o cruel, levantou-se e amigavelmente colocou a mão no ombro do garçom: - Não tem problema. Acidentes acontecem.
O garçom, sentindo que havia reencarnado, emitiu um suspiro profundo. Foi quando Packard, o perverso, tirou sua arma do coldre e disse que ela mesmo já havia disparado por acidente várias vezes. Quando a bala atravessou o cérebro do garçom, espalhando miolos nos pratos dos clientes, Jack, o desumano, teria comentado: - Oh, droga. Preciso mandar essa coisa pro conserto. Bem, pelo menos vamos ter proteínas.
Pois bem, a história que nos chegou é de que certa manhã anunciaram que um forasteiro havia desafiado Jack, o invencível, para um duelo. Ninguém sabia de onde tinha vindo tal forasteiro, mas todos sabiam para onde ia: o inferno. Jack, o meticuloso, era capaz de acertar com uma bala um pernilongo que estivesse picando um companheiro a 30 metros de distância. A 50 metros, não garantia que matava o pernilongo, mas deixava aleijado. Era mais veloz no gatilho que as asas de um beija-flor; mas certa vez um bajulador fez esse comentário a ele e Jack, o bruto, achou que se tratava de zombaria. Jack, o insano, o furou com doze balas em menos de cinco segundos. E olha que teve que parar para recarregar o pente.
E alguém queria duelar com ele.
O desafiante se chamava Carl, logo batizado como O Suicida. Na frente do saloon, ao cair da tarde, o mestre de cerimônias apresentou Jack Packard, o bruto, o cruel, o infame – sim, Jack considerava “infame” um elogio – 105 duelos e 105 vitórias “já contando a de hoje”. Ao apresentar Carl, apenas olhou para ele e disse: “Deus guarde a sua alma.”
Frente a frente, Jack segurou o cabo de seu revólver. Carl fez o mesmo. Jack tinha o instinto de morte. Para ele, matar era tão vital quanto comer, embora não comesse tanto quanto matasse. Packard, o imundo, só aguardava que Carl piscasse para nunca mais abrir os olhos.
Carl puxou a arma rapidamente, apontou para Jack e... tomou tantos tiros que parecia estar duelando contra um exército inteiro. Seu último pensamento foi “de onde ele tirou essa metralhadora?” Sua última palavra, já de joelhos e prestes a tombar para a eternidade, foi: “Papai.”
Um oooohhhhh geral ecoou pelo Velho Oeste. Então aquele forasteiro era o filho bastardo que Jack havia tido quando violou uma mulher num condado próximo? O filho desaparecido que havia virado lenda, que havia praticado a sua primeira morte porque não gostou do jeito como um adulto fez “bilu-bilu” em seu queixo? Sim, o sucessor de Jack, o rude, o bárbaro, o escabroso, estava morto. E pelas mãos do seu próprio pai.
No silêncio da tarde Jack Packard aproximou-se de Carl. Com suas botas sanguinárias, virou o corpo inerte. Só então se deu conta de que o forasteiro tinha o rosto muito parecido com o dele – o rosto por baixo das cicatrizes, claro. O público se aproximou para ver a cena inédita: Jack, o insensível, se emocionaria?
Mas Jack Packard apenas balançou a cabeça e comentou:
- Filhos... Sempre dando trabalho.

Posted by Tiezzi at 11:18 PM

auto-ajuda com o dr. Apolônio

Não sei o que fazer. Eu sou uma pessoa que se cobra muito.
Simples. Não pague.

Às vezes eu me sinto apenas um inocente útil.
Poderia ser pior. Você poderia ser apenas um culpado inútil.

Eu tenho excesso de megalomania. O que o senhor recomenda?
Duas doses de complexo de inferioridade pela manhã e duas à noite.

Sinto que estou prestes a me suicidar. Que devo fazer?
Por garantia, deixe a consulta paga.

Tenho síndrome de tudo. Aposto que ninguém tem mais síndromes do que eu. Qual a sua sugestão?
Inscreva-se no Guiness Book.

Meu marido tem chegado tarde todos os dias. Ele diz que é reunião de trabalho e eu acredito. Será que estou me enganando?
Não. Ele é que está te enganando.

Não sei se tenho síndrome do pânico ou psicose maníaco-depressiva. Qual o seu diagnóstico?
Dupla personalidade.

Não sei o que está acontecendo. Às vezes me sinto feliz, às vezes me sinto triste...
Eu também.

Dr. Apolônio, vou ser sincero: eu acho que o senhor se aproveita da minha ingenuidade.
Não é verdade. E para te provar vou deixar essa consulta pelo dobro do preço.

Os homens sempre me olharam como um corpo bonito, e eu queria ser apreciada pela minha inteligência.
E dá para olhar para a inteligência com um corpão desse?

Às vezes eu tenho a leve impressão de que as pessoas não prestam atenção no que eu falo.
Preste mais atenção no que elas falam. Você vai ter certeza de que não prestam mesmo.

Quem sou eu? De onde vim? Qual o sentido da vida? O senhor pode me ajudar?Para a primeira pergunta, não sei a resposta. Para a segunda, também não. Para a terceira, muito menos. A quarta eu sei: Não.

Dr. Apolônio, quando vou ter alta?
Quando minhas finanças saírem da baixa.

Tenho problemas de auto-estima. Resolvi entrar para a Igreja. Será que vai resolver?
Não. Você vai aprender que deve amar o próximo como a si mesmo. E você, que se odeia, como é que fica?

Eu só consigo levantar da cama se repetir cem vezes “hoje vai ser um grande dia”, e mesmo assim o dia é uma porcaria. Que faço?
Você deve dizer cem vezes “hoje o dia vai ser medonho, desprezível, um lixo, o pior da minha vida”. Aí no final do dia vai ficar feliz por ele ter sido só uma porcaria.

Se é auto-ajuda por que eu tenho que pagar?
Paga que eu respondo.

Posted by Tiezzi at 11:14 PM

sobe!

- Desce?
- Desce.
Silêncio.
- E esse tempo, hein?
- Pois é, que coisa.
Silêncio.
- Você...
- Será que...
- Opa, desculpe. Pode falar.
- Não, fala você.
- Faço questão.
- Primeiro as damas.
Ela sorriu.
- Você é meu vizinho de cima, né?
- Não sei. Depende.
- Depende?
- Você é minha vizinha de baixo?
Ela riu.
- Prazer, Carlos.
- Amanda. O prazer é meu.
Silêncio.
- Esse elevador, hein? Sempre demorado.
- Hoje até que eu estou gostando.
- Ah, é? Por quê?
- Mais tempo pra gente se conhecer.
Ela corou. Térreo.
- Você vai descer?
- Se você não se importa, te acompanho até a garagem. Vai que você se perde no caminho.
Ela riu. Mexeu nos cabelos. Garagem.
- Então tá.
- A gente se fala.
Ela saiu. Quando a porta estava quase fechando, tornou a abrir. Ela sorria, sem graça.
- Acho que eu esqueci uma coisa no apartamento. Vou ter que voltar.
- Aproveita que está subindo.
Ela entrou. Silêncio.
- O tempo está esquentando, né?
- Uma loucura.
- Você passou do térreo de novo.
- Não sei onde eu ando com a cabeça.
Silêncio.
- Aliás, sei.
- O quê?
- Onde eu ando com a cabeça.
- Onde?
- Em você.
Ela perdeu a fala.
- Olha, eu sei que é loucura, eu e você nesse cubículo, mas é que eu tenho uma certa atração por lugares fechados. Você me entende?
- Eu entendo! Claro que eu entendo! Eu sinto isso também. É uma espécie de...
- ... claustrofobia ao contrário.
- Isso! Essa coisa meio sufocante me... me... como é que eu digo? – ela fez uma pausa. – Me excita.
Ele pegou nos braços dela.
- Eu esperei minha vida inteira por alguém que...
A porta se abriu. 16º.
- Você vai...
- Não. Esqueci o que eu tinha esquecido.
Ele sorriu. Ela:
- Vai descer?
- Desce.
- E depois?
- Sobe.
- Hummm.
Depois se encontrariam nos apartamentos de ambos, mas não era a mesma coisa. Resolveram não forçar. Mas todas as vezes que se encontravam na garagem ou na área comum do edifício, trocavam olhares cúmplices. Ele então se aproximava, no ouvido dela:
- No social ou de serviço?

Posted by Tiezzi at 11:12 PM

memórias

Acabei de completar 85 anos e resolvi escrever minhas memórias. Tomei essa decisão depois que... depois que... eu não me lembro exatamente depois de que, mas não tem importância. O que importa é que aos oito anos. Ou foi aos nove? Não, acho que foi aos dezesseis. Isso: dezesseis. Aos oito anos, eu perdi meu emprego.
Que foi, dona Genoveva? A dona Genoveva, a governanta que me acompanha faz... faz quantos anos, dona Genoveva? Exato, cinco anos. Ah, cinqüenta!? Nossa, o tempo passa, hein dona Genoveva. Mas do que estávamos falando mesmo? Ah, sim, a dona Genoveva me disse que eu perdi o emprego aos 45 anos, e que não é Genoveva, e sim Gertrudes.
Então, como eu ia dizendo, aos 18 eu resolvi entrar pra Marinha. Meu sonho era ser general. Que foi, dona Genoveva? General na Marinha? A senhora enlouqueceu? E pára com essa mania de ler por cima do meu ombro.
Bem, então eu me casei e a cerimônia foi exatamente do jeito que eu contei. Era bexiga, brigadeiro, língua de nora, todos os amiguinhos estavam lá. Nunca esqueço aquele aniversário. Teve até aquele palhaço famoso. Aquele que tinha feito um filme, como era o nome? Que no filme ele fazia o papel de um... como é o nome daquela profissão? Aquela que o sujeito fica dentro daquele negócio que anda em cima de um trilho? Bom, enfim, eu só sei que foi uma perda muito triste pra mim. Foi muito de repente, e o tio Leopoldo era um tio que eu gostava muito. Ainda ontem ele veio aqui. Quem o quê, dona Gioconda? O tio Leopoldo morreu, não acabei de dizer? A senhora quer fazer o favor de deixar eu me concentrar. Assim eu perco o fio da meada.
Tem coisa que eu me lembro que parece que foi hoje. Eu lembro bem de uma manhã que eu resolvi dar um passeio na praia, depois à tarde joguei um dominó com a velha guarda e no fim do dia resolvi escrever minhas memórias. Ah, a velha guarda. Somos quatro no buraco: a hora que um morrer tem que mudar de jogo. Não é à toa que chamam a gente de trio parada dura. Que quarto, dona Germana? A senhora vai arrumar o quarto? Faça isso, e não me torra mais a paciência. Eu aqui lembrando da amizade com o Edgar, o Helio e o Matias e você me interrompe. Que foi? Fala mais alto, dona Gisleine, a senhora com essa mania de falar baixo. Ah, sim, dessa vez a senhora tem razão. O trio é o Walter, o Cabral e o Leleco. É que esses nomes são tudo parecido e eu me confundo.
Bom, sobre minha esposa, o que que eu posso falar? Tem tanta coisa que eu até esqueço. Viver é um negócio maluco. É como eu estava dizendo: se a gente não batalhar, igual eu fiz nesse caso da firma de seguro, aí a coisa não vai. Trabalhei 25 anos nessa empresa de demolição e sabe o que aconteceu? É até difícil falar dessas coisas que emocionam. Ver o Pedrinho ali na maternidade. Primeiro filho é fogo. Depois nós fomos pra casa e o Joãozinho, o mais velho, ficou naquela ciumeira.
Logo em seguida eu ganhei meu primeiro patinete. Foi no quintal do meu vizinho, o Landinho. A gente subia na mangueira do seu Aderbal pra roubar jabuticaba até um dia que o cachorro percebeu. A emoção de ganhar o primeiro cachorro é indescritível.
Mês passado eu estava ensinando pra minha nora como é que faz pro Gabriel, meu netinho, não esquecer a tabuada nunca mais. Fala, dona Filomena... será que a senhora só sabe me interromper? Claro que foi o mês passado, dona Filomena. Mas que 20 anos, dona Filomena? Eu sei que o Gabriel tem 26, e o que isso tem a ver?
A senhora vai deixar eu continuar? Vai buscar um chá pra mim, vai. Isso, me deixa em paz. Fica me desconcentrando e eu acabo esquecendo tudo.
Então, meus caros leitores, esse é o primeiro capítulo da minha história. São 85 anos de vida, e recordar o passado assim desse jeito faz tudo ficar tão nítido. Amanhã eu vou contar de quando... de quando... não posso esquecer de pedir pra dona Jesuína me lembrar de escrever amanhã. Nessa tarefa precisa de disciplina; disciplina é tudo. Cadê aquela velha caquética que some na hora que a gente mais precisa? Ah, apareceu a margarida. Onde a senhora se enfiou? Não quero chá não, obrigado. O que eu quero é que a senhora não deixe de me lembrar de jeito nenhum que amanhã eu tenho que regar as plantas.

Posted by Tiezzi at 11:11 PM

pra que complicar?

- Fabiano, eu preciso falar com você.
- Nossa, que tom!
- É sério, Fabiano.
- Nada é sério, querida. Nem a vida.
- É sobre nós dois.
- Você não vai dizer que precisamos discutir a relação, vai?
- Não. Quer dizer, mais ou menos.
- Elaine, Elaine... Como nós podemos discutir a relação se nós nem temos uma relação. Nada de apego, nada de compromisso, nada de amor, esqueceu?
- Não, não esqueci. O problema é que...
- Eu confesso que sempre tive medo de mais cedo ou mais tarde você cair no convencional. Mas pense bem: a gente não está bem do jeito que está?
- Está. Quer dizer, não sei. É justamente sobre isso que eu queria te falar.
- Então fala, Elaine, fala. Talvez você tenha razão, minha querida. Expressar os sentimentos é a melhor maneira de iluminá-los.
- É que eu... Eu acho que estou apaixonada.
- Ah, meu anjo, eu sabia que era isso. Elaine, o amor romântico é uma invenção cultural. Um casal pode muito bem viver sem ele.
- Você já me disse isso, Fabiano. Muitas vezes, aliás. Mas é que dessa vez...
- Elaine, perdão querida, mas terei que ser um pouco ríspido: eu te disse várias vezes que não queria compromisso.
- Eu sei disso, só que...
- Elaine, somos adultos. O que é a maturidade senão o controle das emoções?
- Essa você também já disse. Agora eu posso falar?
- Elaine, minha doce Elaine... Eu sei que é difícil. Eu sei que a vida quase nunca corresponde aos nossos desejos. Eu sei que...
- Eu estou apaixonada pelo Oswaldo.
- Elaine, tudo é uma questão de... O quê!? Pelo Oswaldo!?
- É, eu precisava te contar. Não sei como aconteceu, mas...
- Elaine, você tá maluca, Elaine? Como é que você me fala uma coisa dessas? A gente tem uma relação, um compromisso, Elaine. Esqueceu?
- Fabiano, a gente pode resolver isso como adultos. Pra que complicar? Não é o que você sempre fala?
- Justo o Oswaldo, Elaine!? Um simplório. A reflexão mais profunda que ele é capaz é qual camisa vai vestir. E mesmo assim ainda erra.
- Calma, Fabiano. Você está se exaltando...
- Eu te amo, Elaine! Eu te amo!
- Fabiano, a gente está em um lugar público. As pessoas estão olhando.
- Eu me caso com você. É esse o problema, não é? Então, pronto: vamos nos casar.
- Eu não posso, Fabiano.
- Não pode por quê? Esquece esse papo de que o casamento é uma forma de controle social. Eu não sabia de nada, minha querida. Agora tudo ficou claro pra mim.
- Não é isso, é que... eu vou me casar com o Oswaldo.
- Não pode ser verdade. Isso não está acontecendo.
- Sinto muito, Fabiano.
- Elaine, onde você vai, querida? Espera um pouco. Tudo isso deve ter uma razão de ser. Elaine, volta aqui, Elaine. Sem você eu não vivo! E vocês aí? Que é que estão olhando? Nunca se apaixonaram, não? Seus, seus... insensíveis!

Posted by Tiezzi at 11:10 PM

o primo de Deus

A culpa pelos fanáticos, pelos intolerantes, pelos doutrinadores, pelas guerras santas, pelo Oriente Médio, pela Idade Média, a culpa pelo ódio religioso, o pivô do pecado original, o sujeito que nos enxotou do Paraíso, que nos colocou de joelhos, o que vê o cisco no olho do inimigo, a serpente, o culpado por tudo isso que está aí é um só: o primo de Deus.
Não que seja má pessoa. Irresponsável, é certo. A explicação é simples. As pessoas procuram Deus, mas Deus não é um tipo muito sociável. Prefere ficar na Dele, longe de sua criação, despido de qualquer vaidade em relação à Sua obra. Não sentou sobre os louros da fama por ter criado o universo infinito nem pára pra ler as críticas, que devem ser infinitas.
Quem criou tudo não tem mais nada a fazer, ora essa. A Deus só restou o descanso pela eternidade, embora se diga que descansou só em um dia, o sétimo. De lá pra cá deve estar se dedicando a outros projetos.
O homem, xodó do Senhor, que cuide de si mesmo. O livro arbítrio está aí para ele fazer as arbitrariedades que quiser. O que não dá é ficar carregando o homem nas costas a vida inteira. Haja onipotência.
Além do mais, se o Todo Poderoso botar a cara pra fora a fila de gente pedindo coisas ia dobrar o quarteirão do planeta. Se a Terra fosse quadrada, naturalmente. Fora o que ia pintar de paparazzi.
Sendo assim, mesmo correndo o risco de parecer pedante e anti-social, Deus decidiu jamais aparecer para ser humano nenhum. E o homem – digo, o Deus – tem palavra. Não é como porteiro de boate, que se rolar um uisquinho ou uma donzela mais atrevida, pode passar, sabe como é. Não, no caso do Senhor, se desse o privilégio pra um tinha que ser pra todo mundo. E todo mundo, no caso, seria realmente todo o mundo.
E assim fez-se o sumiço.
Acontece, porém, o seguinte. Raciocinem comigo. Em toda família que tem um bem sucedido – não precisa ser grande coisa, não, pode ser o sujeito que chegou entre os cem na São Silvestre –, pois é, mesmo nesses casos sempre há um parente que preferiu ficar na cerveja mas quer pegar carona no êxito alheio.
Quase sempre quem cumpre o papel é um primo ou cunhado. O primo foi promovido a supervisor técnico auxiliar e o carona começa a cantar a mulherada da firma, com o papo de que o outro sempre se inspirou nele. O cunhado é artilheiro do campeonato do clube e ele lembra os tempos em que lhe aplicava dribles desconcertantes.
O parasita do sucesso é sempre infinitamente mais vaidoso do que o titular. Ele é a sombra de quem está no pódio, o cara que na fotografia sorri mais que o homenageado.
Considerando que Deus não tem cunhado, pelo fato notório de nunca ter casado e não haver registro de irmãs, quem assumiu o posto foi o primo. Esse sim gosta de aparecer. A reclusão do Primo famoso em contraste com o frenesi que provoca é o paraíso pra ele. O parente célebre é citado a todo instante, chegou a ser quase tão famoso quanto os Beatles. Já que o Primo não quer os holofotes, ele quer.
Conclui-se que toda vez que um indivíduo, ou grupo, ou seita, ou comunidade, vilarejo, líder, pé-rapado, chefe-de-estado, fiel, crente, temente, alucinado, entorpecido, embriagado, acidentado, iluminado, convertido, ex-pervertido, ex-desajustado, guru, messias, milagreiro, pregador, pagador de promessa, ermitão, beata, profeta, desapegado, destrambelhado, lunático, fanático, pinel, coroinha, paranormal, mago, místico, asceta, mandingueiro e procissões inteiras afirmarem que viram Deus, na verdade não viram Ele, mas ele, o primo.
Que, evidentemente, não fez questão alguma de ser renegado a um mero parente divino. Se o questionaram se era Ele mesmo, o Deus em pessoa, o primo não hesitou em confirmar e contar sua história. “No princípio era o verbo, aí a coisa foi indo, foi indo...”
Como disse, não por má índole, mas por tratar-se de figura galhofeira e cuca fresca em excesso. O primo não é muito chegado em medir conseqüências, em ponderar prós e contras, essa coisa toda. Ele quer mais é levar a vida na harpa. Seu alimento são as honrarias que recebe no lugar do Outro.
Algumas vezes a consciência pesou (influência do Primo) e ele resolveu abrir o jogo com o interlocutor. Deus é inacessível. Nem ele, que é primo, veja você, o tinha visto, que dirá um visitante que nem é da família? E ainda aconselhava: esquece essa história de ver Deus e vai cuidar da vida, malandro.
Mas não adiantava. A pessoa estava convencida de que ele era Deus sim, negando que O era em sua infinita modéstia.
Então, um dia o primo concluiu que a culpa nem era dele. Ele queria se passar por Deus, a humanidade queria que ele se passasse por Deus, então negócio fechado.
E assim ele vai levando a vida que pediu ao Primo. Sempre na crista da onda, sem preocupações nem crise existencial. Só de vez em quando entra numas de filosofar: Já pensou se meu Primo não existe?
Aí pensa: que diferença faz? E volta pro seu jogo de pôquer.

Posted by Tiezzi at 11:09 PM

perfume de gardênia

Um dia não se agüentou mais e abriu o jogo com a esposa.
- Leila, a gente precisa dar um jeito no Miguelzinho.
- Que é que tem o menino?
- Você sabe muito bem o que ele tem.
Silêncio. Leila sabia muito bem o que tinha o Miguelzinho. O garoto andava muito esquisito. De uma hora pra outra inventou de criar um conjunto de boleros.
- Deixa ele, Rodolfo. Isso passa – a mãe tentava acalmar o marido. E se acalmar.
- Leila, isso não é normal! Os garotos da idade dele têm banda de rock, fazem barulho na garagem, arrepiam o cabelo, andam de jeans rasgado. Mas o nosso filho, Leila...
O Miguelzinho andava de terno, às vezes de fraque. Penteava os cabelos para trás com gumex, porque gel era coisa “dessa geração que não sabe valorizar o que é bom”.
- Fala baixo, Rodolfo. Quer que o nosso filho ouça?
- E daí que ouça? A gente não pode fingir que não está acontecendo nada – a voz do pai tornou-se chorosa: - Meu Deus, olha o que foi acontecer com o meu filho.
- Cala a boca, Rodolfo. O Miguelzinho está vindo aí. Vamos resolver isso com calma.
O filho entrou na cozinha cantarolando. “Reloj, que tiene em sus braços, hace esta noche perpétua.”
- Filho, a gente precisa conversar.
- Agora, mãe? Eu marquei ensaio com o Hector e o Julio.
Como não achou ninguém de sua idade para participar, Miguelzinho formou o conjunto com o Hector, um violão cristalino mesmo aos 62 anos, e o Julio, um virtuoso das maracas que nem a tremedeira crônica nas mãos foi capaz de derrubar. Perfume de Gardênia, era o nome do conjunto.
O pai se enfezou.
- O Hector e o Julio podem esperar.
- É “Rúlio”, pai. Já falei.
- Tanto faz!
- Calma, Rodolfo.
- Basta, pai. No hay porque levantar la voz. Tranquilo.
O filho agora inventara de encaixar um castelhano no meio das frases. A última novidade era o tranquilo, pronunciado sem o trema.
- Filho, nós te fizemos alguma coisa? A gente deixou de te dar apoio, carinho? Pode falar, meu filho.
- Madre, madre... ustedes son maravillosos. Quiçá todos pudessem ter uma família como a minha – e, para completar, cantarolou: - Quiçás, quiçás, quiçás...
Foi a gota d’água para o pai explodir.
- Pode parar com essa palhaçada. E quer saber? Eu te proíbo, Miguelzinho. Enquanto você morar sob este teto está proibido de ouvir, cantar, tocar e muito menos dançar bolero.
- Ninguém puede barrar mis sueños – gritou de volta o Miguelzinho. Mas logo depois sorriu e puxou o papel e a caneta: - Opa, isso dá um bolero.
O pai desabou na cadeira. A mãe argumentou que repressão só iria piorar. O Miguelzinho podia fugir de casa e parar, sei lá, no palco de algum clube noturno.
- Mãe, posso ir?
- Olha aí – falou a mãe tranqüilizando o marido. – O nosso filhinho é educado, pede autorização. E para o garoto: - Vai, meu anjo, mas não demora.
- Tranquilo.
O menino foi saindo, sob o olhar deprimido do pai. Na porta, Miguelzinho deu meia volta improvisando um passo de dança.
- Ah, e antes que yo me olvides. A partir de hoy ustedes podem me chamar de Miguelito?

Posted by Tiezzi at 11:07 PM